O agronegócio de Mato Grosso continua liderando a produção nacional de grãos e carne bovina, mas um indicador financeiro começa a preocupar produtores, cooperativas, bancos e entidades do setor. As operações de crédito rural consideradas problemáticas já somam R$ 21,79 bilhões no estado, cenário que motivou uma mobilização da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) em Brasília para buscar alternativas capazes de preservar o financiamento das próximas safras.
Nesta terça-feira, representantes da entidade participaram de reuniões com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e técnicos do Ministério da Fazenda para defender a criação de um Fundo Garantidor destinado ao crédito rural. A proposta busca reduzir o risco das operações financeiras e ampliar o acesso dos produtores aos financiamentos necessários para manter a atividade.
O debate ocorre justamente em um momento em que os números apontam uma mudança importante na realidade financeira do campo mato-grossense.
Endividamento cresce e preocupa o setor produtivo
Levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostra que o volume de operações inadimplentes, renegociadas ou prorrogadas alcançou R$ 21,79 bilhões, o equivalente a 18,22% de toda a carteira de crédito rural de Mato Grosso.
O dado representa uma mudança expressiva quando comparado a 2022, período em que esse percentual era de apenas 2,08%.
Outro indicador chama atenção: as operações com atraso superior a 90 dias já somam R$ 5,25 bilhões, correspondendo a 4,98% do crédito rural concedido no estado.
Embora Mato Grosso siga registrando recordes de produção em diversas culturas, o ambiente econômico enfrentado pelos produtores mudou significativamente nos últimos anos, influenciado por custos elevados de produção, oscilações internacionais de preços, aumento das taxas de juros e maior seletividade das instituições financeiras na concessão de crédito.
O que está dificultando o acesso ao crédito
Segundo a Famato, muitos produtores continuam economicamente viáveis e seguem produzindo normalmente, mas encontram dificuldades para contratar novos financiamentos.
Na avaliação da entidade, parte desse cenário ocorre porque diversas propriedades já utilizam praticamente todos os ativos disponíveis como garantia em operações anteriores.
Sem novas garantias reais, bancos acabam restringindo ou reduzindo a concessão de novos financiamentos, justamente no momento em que o planejamento da próxima safra começa a ganhar força.
O presidente da Famato, Vilmondes Tomain, afirmou que o setor precisa de instrumentos capazes de dar segurança ao sistema financeiro sem interromper o fluxo de crédito para quem continua produzindo.
Segundo ele, sem financiamento adequado, toda a cadeia econômica pode sentir os reflexos.
Fundo Garantidor pode movimentar até R$ 80 bilhões
A principal proposta apresentada ao governo federal prevê a criação de uma carteira específica dentro do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI-PEAC).
Pela sugestão das entidades do agronegócio, o Tesouro Nacional faria um aporte inicial de R$ 8 bilhões.
Esse valor serviria como garantia parcial das operações e teria potencial para destravar aproximadamente R$ 80 bilhões em novos financiamentos destinados ao setor rural.
Na prática, o fundo funcionaria como um mecanismo de compartilhamento de risco entre governo, instituições financeiras e produtores.
Assim, bancos poderiam ampliar a oferta de crédito sem aumentar significativamente sua exposição financeira.
Por que isso interessa também às cidades de Mato Grosso
Embora o debate pareça restrito ao setor agropecuário, seus efeitos alcançam praticamente toda a economia mato-grossense.
Municípios fortemente ligados ao agronegócio, como Lucas do Rio Verde, Sorriso, Nova Mutum, Sinop, Rondonópolis e Campo Verde, dependem diretamente do desempenho das lavouras e da pecuária para movimentar comércio, serviços, indústria, transporte e geração de empregos.
Quando o crédito diminui, o impacto pode atingir fornecedores de insumos, concessionárias de máquinas agrícolas, transportadoras, oficinas, cooperativas, cerealistas e até o comércio local.
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Crédito é considerado essencial para manter a produção
Especialistas do setor lembram que o crédito rural vai muito além do financiamento da lavoura.
Os recursos permitem a compra de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, combustíveis, contratação de mão de obra e investimentos em tecnologia.
Sem capital disponível no momento adequado, parte dos produtores pode reduzir investimentos, alterar o planejamento produtivo ou até diminuir áreas cultivadas.
Essa preocupação aumenta porque Mato Grosso permanece como principal produtor nacional de soja, milho, algodão e carne bovina, respondendo por parcela significativa das exportações brasileiras.
Entidades defendem solução permanente
Além da Famato, outras importantes organizações do setor apoiam a proposta apresentada ao governo federal.
Entre elas estão a Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a Aprosoja Mato Grosso e a Aprosoja Brasil.
Na avaliação das entidades, a regulamentação do Fundo Garantidor precisa ocorrer rapidamente para que os recursos estejam disponíveis antes da contratação da próxima safra.
O entendimento é de que a medida não representa apenas apoio ao produtor rural, mas também uma estratégia para preservar investimentos, empregos, arrecadação e o crescimento econômico dos municípios que dependem diretamente do agronegócio.
Caso a proposta avance, o mecanismo poderá representar uma das mais importantes mudanças no financiamento rural dos últimos anos, oferecendo novas alternativas para manter a competitividade do agro mato-grossense em um cenário de maior restrição ao crédito.
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