Uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou resíduos compatíveis com sangue em áreas do antigo DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão da ditadura militar brasileira. Durante os trabalhos, os pesquisadores também localizaram um calendário gravado na parede de um banheiro, preservado sob diversas camadas de tinta e reformas.
O estudo reuniu especialistas da Unifesp, Unicamp, UFMG, UFSC e USP, combinando arqueologia, análise arquitetônica e técnicas das ciências forenses para investigar ambientes historicamente associados a detenções, interrogatórios e tortura.
As análises realizadas em uma antiga enfermaria e em salas de interrogatório identificaram resíduos hemáticos. Em uma amostra coletada na chamada sala 7, um teste confirmatório apresentou resultado positivo para sangue humano.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que os exames laboratoriais não permitem determinar quando o material foi depositado nem identificar perfis de DNA, devido à degradação das amostras, às condições ambientais e às sucessivas reformas no edifício.
Segundo a equipe, o contexto arqueológico permitiu relacionar os vestígios ao período de funcionamento do DOI-Codi/SP. De acordo com a coordenadora da frente de arqueologia forense da pesquisa, Cláudia Plens, os métodos forenses não determinam a data exata da deposição, enquanto a análise arqueológica possibilita situar os vestígios no período histórico correspondente, sem vinculá-los a uma pessoa ou episódio específico.
Calendário preservado na parede
Outro achado ocorreu em um banheiro localizado no terceiro andar do prédio. Sob camadas de tinta e reparos, a equipe encontrou números e inscrições gravados diretamente na parede, interpretados como um calendário com marcações entre os dias 23 e 31 de outubro e de 1º a 4 de novembro.
Para os pesquisadores, o registro representa uma evidência material da experiência do encarceramento e da tentativa de preservar a noção do tempo dentro do espaço repressivo.
A análise inicial apontou que o calendário poderia ter sido produzido em 1970 ou 1981. A dúvida foi esclarecida após o cruzamento das informações com o depoimento de uma ex-presa política, que afirmou ter visto a inscrição quando esteve detida no local em 1971, permitindo atribuir o registro ao ano de 1970.
Investigação arqueológica do edifício
O complexo do DOI-Codi/SP, localizado na Rua Tutóia, na zona sul da capital paulista, reunia celas, salas de interrogatório, áreas administrativas, estruturas de vigilância e ambientes utilizados para tortura. Segundo a Unifesp, pelo menos 52 mortes ocorridas no local são oficialmente reconhecidas, e mais de 7 mil pessoas passaram pelo centro durante seu funcionamento.
A pesquisa concentra-se no chamado prédio 2-A, identificado por sobreviventes como um dos principais locais de interrogatório e tortura do complexo.
Sem plantas detalhadas e registros completos das reformas realizadas ao longo das décadas, os pesquisadores recorreram à combinação de documentos históricos, testemunhos e análise arqueológica da arquitetura para definir os pontos de investigação.
Foram examinadas antigas salas de interrogatório, uma possível enfermaria, uma sala associada à prática de tortura e um banheiro. A primeira etapa do projeto, realizada em 2022, utilizou radar de penetração no solo e escaneamento tridimensional. Em agosto de 2023, a equipe realizou escavações, prospecções em paredes e pisos, análises forenses e atividades abertas ao público.
Durante os trabalhos, também foram identificados o contrapiso de madeira original em alguns ambientes e diferentes camadas de tinta, reboco e reparos acumulados ao longo das décadas, reforçando o edifício como fonte de evidências históricas.
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