Quem lucra com a madeira ilegal em Mato Grosso? Cadeias ocultas e falhas na fiscalização

Quase metade da exploração ilegal de madeira em Mato Grosso ocorre em áreas protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação. O avanço dessa prática tem causado degradação ambiental, perda de biodiversidade e aumento do risco de incêndios florestais.

Dados de um estudo da Rede Simex revelam que, em 2024, 46% da área explorada ilegalmente para fins madeireiros no estado estava localizada em Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs). Foram 22,4 mil hectares nessas categorias, o que representa um crescimento de 85% em relação ao período anterior. A análise considera dados entre agosto de 2023 e julho de 2024.

Exploração madeireira em números

No total, 190 mil hectares de florestas nativas foram explorados para fins madeireiros em Mato Grosso no período analisado. Desse volume:

  • 74% (141 mil hectares) tiveram exploração legal, com autorização válida e dentro das áreas permitidas;
  • 26% (49 mil hectares) foram explorados sem autorização, representando um aumento de 2% em relação ao ano anterior.

Mudança no perfil da ilegalidade

Historicamente, os imóveis rurais privados concentravam a maior parte da exploração ilegal. Em 2024, no entanto, essa categoria registrou o menor índice de ilegalidade da série histórica do Simex Mato Grosso, monitorada pelo Instituto Centro de Vida (ICV) desde 2013.

Foram identificados 22,8 mil hectares explorados ilegalmente em imóveis privados, com mais da metade desse total concentrada em apenas 30 propriedades rurais.

Em contrapartida, a exploração ilegal avançou de forma significativa em áreas protegidas. Foram registrados:

  • 17,8 mil hectares em Terras Indígenas;
  • 4,6 mil hectares em Unidades de Conservação.

Entre as áreas mais afetadas estão as Terras Indígenas Aripuanã e Parque do Xingu, além das Unidades de Conservação Reserva Extrativista Guariba/Roosevelt e Parque Estadual Tucumã, no município de Colniza.

Impactos ambientais e sociais

Para o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Vinicius Silgueiro, o avanço da ilegalidade em áreas protegidas evidencia falhas no sistema de comando e controle ambiental do estado.

“Essa exploração ilegal acarreta degradação do habitat, perda de biodiversidade e aumento do risco de incêndios. Nas terras indígenas, as ocorrências violam direitos constitucionais e ameaçam a sobrevivência cultural e física dos povos”, afirmou.

Segundo ele, a ilegalidade também prejudica a economia formal do setor florestal. “Cria-se uma concorrência desleal, que desvaloriza o mercado legal e penaliza empresas que investem em boas práticas, certificações e manejo sustentável”, completou.

Fiscalização e rastreabilidade como solução

Como caminho para reduzir as ilegalidades, Silgueiro defende uma combinação de medidas estruturais:

  • fortalecimento da fiscalização ambiental;
  • maior transparência e rastreabilidade da cadeia produtiva;
  • incentivos econômicos à legalidade e ao manejo florestal sustentável.

“A fiscalização precisa ser mais focada, ágil e punitiva para desmantelar as cadeias ilegais. É fundamental garantir a efetividade do Sisflora 2.0, verificando dados de georreferenciamento e rendimento volumétrico, para que o sistema não se torne apenas burocrático. A legalidade precisa ser economicamente mais viável do que a ilegalidade”, destacou.

O que é a Rede Simex

A Rede Simex é formada pelo Instituto Centro de Vida (ICV), Imazon e Imaflora. O sistema identifica e mapeia áreas de exploração madeireira e cruza essas informações com autorizações emitidas pelos órgãos ambientais.

Em Mato Grosso, o mapeamento e a validação dos dados são realizados por meio de cooperação técnica entre o ICV e a Coordenadoria de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (CGMA) da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT).

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