Um amplo estudo epidemiológico conduzido por cientistas de Mato Grosso trouxe dados inéditos sobre a circulação do HTLV (Vírus Linfotrópico de Células T Humanas) no estado.
A pesquisa, realizada em uma força-tarefa entre o MT Hemocentro, o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-MT) e o Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), analisou o histórico de 60.568 amostras de sangue coletadas na rede pública de hemoterapia entre os anos de 2018 e 2021.
O rastreamento revelou que 63 doadores testaram positivo para o vírus, o que representa uma taxa de prevalência de 0,10%.
O índice é classificado pelos cientistas como baixo e se assemelha ao patamar epidemiológico registrado nos hemocentros da Região Sudeste do país, consolidando a eficácia dos testes de triagem locais.
O que é o HTLV e por que ele preocupa os médicos?
O HTLV é um retrovírus pertencente à mesma família do HIV. Ele ataca diretamente os linfócitos T, que são células de defesa vitais para o funcionamento do sistema imunológico humano. A grande armadilha desse vírus está no seu comportamento silencioso: na imensa maioria das vezes, a infecção permanece completamente assintomática por anos ou até décadas, sem dar qualquer sinal de sua presença.
No entanto, uma pequena parcela dos pacientes infectados pode evoluir para quadros clínicos crônicos e altamente debilitantes, divididos em duas frentes principais:
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Complicações Neurológicas: Pode causar a Paraparesia Espástica Tropical, uma doença inflamatória que afeta a medula espinhal e reduz progressivamente a mobilidade das pernas;
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Complicações Hematológicas: Pode desencadear a Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto, um tipo de câncer sanguíneo considerado raro, mas com comportamento clínico muito agressivo.
O vírus também está associado a problemas como dermatites severas, inflamações na região ocular e uma redução geral da imunidade, abrindo portas para outras infecções.
Perfil dos infectados e presença de coinfecções
O pico de diagnósticos dentro do recorte temporal avaliado ocorreu no ano de 2020, quando o índice de testes positivos atingiu 0,16%. Ao traçar o perfil sociodemográfico dos 63 casos confirmados, os pesquisadores identificaram uma prevalência clara de:
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Mulheres com idade entre 31 e 45 anos;
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Indivíduos de etnia parda;
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Pessoas com ensino médio completo e inseridas no mercado de trabalho formal (setor privado).
O levantamento também acendeu um alerta para a vulnerabilidade clínica desse grupo. Os testes apontaram casos de coinfecção, ou seja, pacientes que além do HTLV também carregavam outros patógenos de transmissão sanguínea ou sexual, como HIV, sífilis e as hepatites B e C.
Para alcançar esses resultados, o Lacen e o Hemocentro utilizaram a técnica automatizada de quimioluminescência, um método laboratorial de alta sensibilidade capaz de rastrear anticorpos específicos com margem mínima de erro.
Vigilância contínua e fomento à ciência local
A triagem para o HTLV em bancos de sangue é obrigatória por lei no Brasil desde 1993, servindo como uma barreira que impede a contaminação por transfusões e direciona os portadores assintomáticos para tratamento precoce na Rede de Atenção à Saúde do SUS.
O monitoramento ganha um novo aliado com uma linha de pesquisa focada no mapeamento da carga proviral do vírus entre 2024 e 2026. O projeto recebe o suporte financeiro do edital PPSUS da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), buscando introduzir novas técnicas de detecção molecular no estado.
A coordenação científica da pesquisa está sob a responsabilidade do professor doutor Ruberlei Godinho de Oliveira, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), especialista em biotecnologia e microbiologia. O estudo também atua na formação de quadros técnicos na saúde pública, destacando o trabalho da farmacêutica Pennsylvania Marinho Borralho, integrante do Hemocentro de Mato Grosso.
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