Uma engrenagem silenciosa e letal está consumindo a juventude masculina em Mato Grosso. O mais recente raio-X do Atlas da Violência revela que o estado enfrenta um ciclo de alta ininterrupta na execução de homens entre 15 e 29 anos.
Em um intervalo de apenas cinco anos, o volume de homicídios nessa fatia da população deu um salto de 25%, transformando a periferia e o interior em cenários de um apagão demográfico juvenil.
O relatório aponta que, em 2024, o território mato-grossense registrou 496 assassinatos de jovens. Para se ter uma ideia da gravidade do cenário atual, esse número representa o pior desempenho do estado em uma década, ficando atrás apenas das 636 mortes contabilizadas no sangrento ano de 2014.
A anatomia da curva de letalidade
A série histórica recente mostra que o estado chegou a desenhar uma rota de recuo logo após o primeiro ano da pandemia, mas o fôlego protetivo durou pouco. A partir de 2022, a curva de homicídios de jovens retomou uma escalada agressiva:
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O recuo temporário: Em 2021, o estado atingiu o menor patamar do período, com 348 mortes.
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O repique da violência: Logo no ano seguinte, em 2022, o índice saltou para 436 casos.
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A consolidação da alta: O ano de 2023 fechou com 452 execuções, pavimentando o caminho para o teto de 496 vítimas registrado no balanço de 2024.
Por que eles morrem? O fator social da masculinidade
Ao contrário do que prega o senso comum, a violência urbana não escolhe suas vítimas de forma aleatória. Ela tem gênero, comportamento e idade bem definidos. Os pesquisadores que assinam o Atlas advertem que a letalidade juvenil no Brasil é um fenômeno predominantemente masculino, alimentado por um ingrediente cultural complexo: as regras invisíveis da masculinidade social.
Desde a infância, os homens são estimulados a adotar posturas de enfrentamento, naturalizar a agressividade física e se expor a situações de alto risco como forma de validação entre pares. O relatório faz duras críticas aos planos tradicionais de segurança pública que ignoram essa engrenagem psicológica. De acordo com o documento, combater o crime sem ensinar formas não violentas de resolução de conflitos dentro das escolas é o mesmo que enxugar gelo.
O filtro da violência: Cor, Renda e CEP
O estudo estatístico deixa claro que existe um perfil socioeconômico exato para o alvo dos atiradores em Mato Grosso. A morte de jovens não se distribui de maneira uniforme pelos bairros e cidades; ela opera sob um filtro de tripla vulnerabilidade:
Território conflagrado: Os homicídios estão concentrados nas franjas periféricas dos grandes centros urbanos e em bolsões de pobreza de cidades que cresceram rápido demais. São áreas marcadas historicamente pela ausência de infraestrutura básica, falta de iluminação e escassez de empregos.
Nesses locais, o jovem negro, pardo e de baixa renda acaba virando a principal estatística de óbito. O Atlas conclui que, enquanto o Estado focar apenas no policiamento ostensivo e de confronto, sem injetar assistência social, esporte e inclusão financeira nos CEPs mais vulneráveis, a juventude continuará sendo a principal moeda de troca da criminalidade.
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