O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 — que propõe reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas sem redução de salário — ganha contornos específicos em Mato Grosso. Para o setor de bares e restaurantes, a mudança não é apenas uma questão de horas no relógio, mas um fator que pode impactar diretamente o bolso do trabalhador que depende de produtividade.
Daniel Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no estado (Abrasel-MT), avalia que o empregado pode ser o elo mais fragilizado na transição. Segundo ele, em um setor onde a remuneração é fortemente atrelada a comissões, um dia a menos de atendimento significa, na prática, menos mesas servidas e menor ganho mensal para garçons e atendentes.
A “Matemática do Garçom” e o Custo Operacional
Diferente de setores com produção linear, a gastronomia depende do fluxo de clientes. “Se o garçom trabalha cinco dias, ele atende um número X de mesas. Se trabalha seis, atende mais. Não há como fazer milagres ou dobrar o atendimento nos outros dias se a mesa não estiver disponível”, explica Teixeira.
Além da queda na renda variável do funcionário, a Abrasel aponta outros desafios para os empresários locais:
- Repasse de Preços: A necessidade de contratar mais pessoal para cobrir as folgas, somada ao aumento real do custo por hora trabalhada, deve ser transferida para o cardápio.
- Apagão de Mão de Obra: Mato Grosso já enfrenta carência de profissionais qualificados, o que torna a exigência de novas contratações um obstáculo logístico.
- Custos Fixos: Mesmo com menos dias de operação, despesas como energia e aluguel permanecem inalteradas.
A “Tempestade Perfeita”: Álcool e Canetas Emagrecedoras
O setor também enfrenta uma mudança comportamental profunda. O fenômeno das “canetas emagrecedoras” (como Ozempic e Mounjaro) e a redução no consumo de álcool alteraram o ticket médio dos estabelecimentos. Dados indicam que 64% dos brasileiros adultos afirmam não beber em 2025, e o uso de medicamentos para perda de peso reduziu o consumo de alimentos em cerca de 20% em alguns locais.
No próprio restaurante de Teixeira, em Cuiabá, a solução foi criar um “cardápio Mounjaro”, com porções e preços menores. “É uma revolução mundial que precisa ser considerada no debate da jornada de trabalho”, reforça.
Cenário Legislativo em Brasília
Enquanto o setor produtivo manifesta preocupação, a PEC avança na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Hugo Motta, encaminhou as propostas — incluindo a da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) — para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
As discussões devem ser intensificadas em março de 2026. O Governo Federal vê a medida como prioridade, mas o texto final ainda pode sofrer alterações, como a proposta de uma jornada intermediária de 40 horas semanais, visando equilibrar o avanço social com a sustentabilidade das empresas.
Equilíbrio Necessário
Para a Abrasel-MT, embora o aumento das folgas seja visto como um “avanço civilizatório”, a implementação exige cautela para evitar o fechamento de empresas e a precarização indireta da renda do trabalhador. O setor defende que todas as variáveis — incluindo a incerteza da Reforma Tributária — estejam sobre a mesa antes de qualquer mudança definitiva.
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