O planejamento de políticas públicas transversais e a urgência na consolidação de redes de assistência integral centralizaram os debates no Parlamento Estadual. A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) sediou, nesta segunda-feira (22 de junho), em Cuiabá, a VI edição do Simpósio do Autismo. Sob o tema “Autonomia se constrói com apoio”, o evento reuniu cientistas, médicos, parlamentares, juristas e centenas de famílias atípicas para debater os gargalos no diagnóstico e na inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A tônica dos painéis convergiu para a necessidade de descentralização do atendimento especializado e para a aplicação rigorosa do arcabouço jurídico de proteção já existente no país.
Intervenção precoce na primeira infância é crucial para ganho de autonomia
A importância do fator temporal no desenvolvimento neurodivergente foi detalhada pelo professor Luiz Alexandre Barbosa de Freitas, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O especialista defendeu que os estímulos terapêuticos e pedagógicos aplicados nos primeiros anos de vida (primeira infância) produzem reflexos diretos na neuroplasticidade da criança, alavancando competências cognitivas, sociais, motoras e emocionais de longo prazo.
De acordo com o docente, a autonomia não deve ser vista como um evento isolado, mas como uma construção diária e progressiva operada em sinergia pela tríade formada pela família, escola regular e corpo clínico. Ele orientou que pequenos hábitos domésticos, como permitir a exploração segura de ambientes e delegar escolhas rotineiras simples, funcionam como alicerces para a independência futura.
Parlamentar cobra criação de centro de diagnóstico e retomada da Casa do Autista
No campo político e de fiscalização orçamentária, o deputado estadual Wilson Santos destacou o protagonismo do Legislativo, que já chancelou mais de 30 leis de amparo à comunidade autista no Estado. Contudo, o parlamentar subiu o tom ao cobrar do Poder Executivo a efetivação dessas normas e a execução de obras estruturantes travadas na Baixada Cuiabana.
Entre as principais cobranças apresentadas pela mesa diretora do simpósio destacam-se:
- A imediata implantação de um Centro Estadual de Diagnóstico precoce para TEA e dislexia;
- A retomada e conclusão das obras da Casa do Autista, complexo de atendimento especializado que se encontra com o cronograma físico paralisado em Cuiabá;
- A ampliação de repasses financeiros para municípios do interior estruturarem suas próprias salas de recursos multifuncionais.
Mapeamento genético auxilia no prognóstico clínico e no planejamento familiar
O panorama médico-científico foi enriquecido pela palestra do pediatra e geneticista Marcial Francis Galera, que detalhou a arquitetura genética do TEA. Ele explicou a diferenciação clínica entre o autismo sindrômico — que se manifesta associado a outras síndromes genéticas ou anomalias físicas visíveis, facilitando o fechamento do laudo — e o não-sindrômico, cujo diagnóstico é puramente comportamental e demanda investigações laboratoriais e multiprofissionais mais profundas. O médico ressaltou que o mapeamento genético é uma ferramenta valiosa para desenhar terapias personalizadas e orientar casais no planejamento de futuras gestações.
O lado humano e os desafios práticos da maternidade atípica foram compartilhados por Julien Steffani da Silva Carmo, mãe de quatro crianças laudadas com autismo. Julien, que lidera um projeto social voluntário de acolhimento e mentoria para mães em comunidades vulneráveis, igrejas e escolas, enfatizou que a saúde mental dos cuidadores é o pilar invisível que sustenta a evolução das crianças.
Com uma estimativa nacional que aponta para mais de 2 milhões de brasileiros no espectro, o simpósio reforçou a necessidade de cumprimento integral da Lei Federal nº 12.764 (Lei Berenice Piana), que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista em Mato Grosso.
Reportagem baseada nos anais e notas técnicas do VI Simpósio do Autismo da ALMT, relatórios de neurodesenvolvimento da UFMT e diretrizes assistenciais da Lei Berenice Piana.
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