Mato Grosso lidera VBP agropecuário, mas cenário de endividamento e custos pressiona rentabilidade no campo

Estado responde por 15% da produção nacional, enquanto dados de crédito rural e custos de produção revelam desafio crescente de equilíbrio financeiro no setor

O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) do Brasil atingiu R$ 1,4 trilhão em maio de 2026, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 17 de junho. Do total, R$ 908,8 bilhões são provenientes da lavoura e R$ 510,2 bilhões da pecuária.

Mato Grosso mantém a liderança nacional, com R$ 213,5 bilhões, o equivalente a 15% do VBP brasileiro. O desempenho reforça o protagonismo do estado na produção de alimentos, fibras e energia, além de sua relevância estratégica para a economia do país.

Apesar da expressiva participação, especialistas destacam que o indicador precisa ser interpretado com cautela.

O VBP representa o faturamento bruto gerado dentro das propriedades rurais, calculado com base na produção e nos preços recebidos pelos produtores. No entanto, não considera custos de produção, como juros, arrendamentos, frete, armazenagem, tributos, investimentos, perdas climáticas ou dívidas acumuladas de safras anteriores.

Na prática, isso significa que um VBP elevado não reflete necessariamente lucro, capitalização ou capacidade de pagamento do produtor rural.

Endividamento atinge patamar elevado no crédito rural

Essa distinção ganha relevância diante do cenário atual do crédito rural. Levantamentos do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, mostram que, até abril de 2026, a carteira ativa de crédito rural no Brasil somava R$ 895,18 bilhões, sendo que R$ 186,52 bilhões estavam classificados como saldo problemático.

Em Mato Grosso, a carteira alcançava R$ 108,03 bilhões, dos quais R$ 21,78 bilhões se enquadravam como problemáticos — incluindo operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas. O volume representa aproximadamente um quinto da carteira total no estado.

No recorte estadual, o saldo problemático era composto por R$ 2,20 bilhões em atraso, R$ 5,25 bilhões inadimplentes, R$ 2,58 bilhões prorrogados e R$ 11,76 bilhões renegociados. No Brasil, os valores chegam a R$ 15,24 bilhões em atraso, R$ 38,77 bilhões inadimplentes, R$ 28,52 bilhões prorrogados e R$ 103,99 bilhões renegociados.

O diretor administrativo da Aprosoja Mato Grosso, Diego Bertuol, afirma que o setor enfrenta dificuldades crescentes para alongar dívidas junto às instituições financeiras, mesmo em cenários de comprovação de perdas e capacidade de pagamento.

Segundo ele, em alguns casos, prorrogações têm sido tratadas como renegociações comerciais comuns, com exigência de garantias adicionais, taxas elevadas e prazos considerados incompatíveis com a realidade da atividade agrícola.

Custos de produção seguem em alta

Além da pressão do crédito, os custos de produção continuam em trajetória de crescimento.

Levantamento do Projeto Custo de Produção Agropecuário, desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT) em parceria com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), aponta que o custeio da soja para a safra 2026/27 deve aumentar 3,21% em relação ao ciclo anterior, chegando a R$ 4.315,29 por hectare.

Entre os principais fatores de pressão estão os fertilizantes e corretivos, com alta de 5,40%, influenciados por questões geopolíticas, e os defensivos agrícolas, que registraram aumento próximo de 11%.

O estudo também indica elevação de 9,13% no ponto de equilíbrio da atividade, o que exige maior produtividade ou melhores preços de comercialização apenas para manter a rentabilidade.

Crédito do Plano Safra não acompanha demanda do setor

Outro ponto destacado pelo setor produtivo é a diferença entre os valores anunciados no Plano Safra e o volume efetivamente liberado aos produtores.

Entre julho de 2025 e abril de 2026, as concessões de crédito rural para a agricultura, excluindo Pronaf e CPR, somaram R$ 229,4 bilhões, uma queda de aproximadamente 11% em relação ao ciclo anterior.

A redução foi puxada pelo recuo de 12% no custeio, 25% no investimento e 20% na comercialização, representando uma retração total de R$ 28,8 bilhões nessas modalidades.

O crescimento de 69% na industrialização amenizou parcialmente o resultado, mas não compensou a queda nas linhas tradicionais de financiamento agropecuário.

Estrutura de financiamento mais restrita em Mato Grosso

No caso mato-grossense, o financiamento da soja na safra 2025/26 mostra forte participação de agentes privados. O sistema financeiro responde por 35,4% do custeio, seguido por multinacionais (30,7%) e recursos próprios dos produtores (23,5%).

Os bancos com recursos federais representam apenas 5,1%, enquanto as revendas de insumos respondem por 5,3%, evidenciando a menor participação do crédito oficial no financiamento da atividade.

Produção elevada, mas pressão financeira crescente

Para representantes do setor, o cenário atual não reflete falta de produção ou perda de competitividade. Mato Grosso segue como um dos principais polos agropecuários do mundo.

A avaliação, no entanto, é de que há um desequilíbrio crescente entre custos, crédito e receitas. Produzir ficou mais caro, o crédito mais restrito e os riscos mais elevados, enquanto os preços nem sempre acompanham a evolução das despesas.

Nesse contexto, lideranças do setor defendem o avanço de medidas estruturantes para o endividamento rural, como o Projeto de Lei nº 5.122/2023, que trata da reorganização de passivos no campo.

O entendimento é de que iniciativas dessa natureza podem contribuir para recompor a capacidade de pagamento dos produtores, preservar a produção e garantir a sustentabilidade econômica da atividade rural.

Mesmo com o VBP em patamar recorde, o setor reforça que o indicador expressa a grandeza da produção, mas não traduz sozinho a realidade financeira do produtor, que segue pressionado por custos elevados, crédito restrito e endividamento crescente.

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