Entenda por que a carne vermelha é evitada na Sexta-feira da Paixão

A tradição vai além da religião e envolve um ato de penitência e respeito; compreenda o real significado por trás do jejum nesta data especial

Prática milenar simboliza o sacrifício de Cristo e convida os fiéis à penitência e reflexão. Especialistas explicam que a restrição é uma forma de honrar o corpo de Jesus neste dia de luto cristão.

Nesta sexta-feira, 3 de abril de 2026, as cozinhas de Mato Grosso trocam o tradicional churrasco pelo peixe. Mas a pergunta que muitos se fazem é: qual a origem dessa restrição? Para a Igreja Católica, a Sexta-feira da Paixão é um dia de profundo luto e gratidão. A carne vermelha é evitada por ser um símbolo direto do sangue e do corpo de Cristo entregues no Calvário.

🥩 O SIMBOLISMO DA CARNE VERMELHA

IGREJA CATOLICA
A Igreja Católica oferece alternativa aos fiéis à abstinência de carne na Sexta-Feira Santa — Foto: Freepik

Esta restrição tem um motivo teológico claro:

  • Recordação do Corpo: A carne vermelha remete ao corpo de Jesus Cristo, que sofreu a Paixão e a crucificação.

  • Penitência: O Código de Direito Canônico define a abstinência como uma escolha por uma “alimentação simples e pobre”, abrindo mão de um prazer gastronômico em sinal de sacrifício.

📜 ORIGEM DA PRÁTICA

O costume não surgiu do nada. Ele remonta a séculos de história cristã:

  1. Século IV: Começou com os fiéis que iam a Jerusalém refazer o trajeto da Paixão.

  2. Século XVII: A prática se popularizou globalmente, tornando-se uma regra para a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa.

  3. Diferença entre Jejum e Abstinência: Enquanto o jejum é a privação total ou parcial de alimentos, a abstinência é a escolha específica de não consumir carnes de animais de sangue quente (mamíferos e aves).

O Código de Direito Canônico orienta oficialmente os católicos sobre práticas de penitência ao longo do ano, especialmente durante a Quaresma. De acordo com a norma, todas as sextas-feiras e o período quaresmal são dedicados à penitência, sendo obrigatória a abstinência de carne para fiéis a partir dos 14 anos nas sextas da Quaresma, com destaque para a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-Feira Santa.

Além disso, a Igreja recomenda o jejum para pessoas entre 18 e 59 anos na Sexta-Feira Santa, prática que consiste em fazer apenas uma refeição principal ao longo do dia, podendo ser complementada por duas refeições menores.

Por que o peixe é permitido?

Muitos leitores do CenárioMT perguntam por que o peixe entra no cardápio. Historicamente, o peixe era considerado uma “comida simples”, acessível e fria, não associada ao “sangue quente” do sacrifício de Cristo. Além disso, o peixe é um dos símbolos mais antigos do cristianismo (Icthys). A substituição da carne pelo peixe tem origem histórica e simbólica. Tradicionalmente, o peixe era visto como um alimento simples, distante de celebrações luxuosas. Além disso, por não ser considerado carne de “sangue quente”, ele não está associado ao simbolismo do sacrifício. Por isso, tornou-se uma alternativa aceita durante os dias de abstinência.

Com o tempo, essa prática ganhou força cultural, especialmente em países como o Brasil, onde pratos à base de peixe — como o bacalhau — se tornaram tradicionais nesse período.

E em outras religiões cristãs?

Embora mais comum no catolicismo, o jejum e a abstinência também aparecem em outras vertentes:

  • Igreja Ortodoxa: adota regras ainda mais rigorosas, com restrições que podem incluir carne, laticínios, ovos e até óleo.
  • Anglicanismo: mantém práticas semelhantes em algumas comunidades.
  • Igrejas evangélicas: não têm obrigação institucional, mas muitos fiéis realizam jejuns ou sacrifícios pessoais por devoção.

No geral, essas práticas têm como objetivo incentivar a reflexão, disciplina espiritual e renovação da fé durante um dos períodos mais importantes do calendário cristão.

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