Presidente de Grego

Há um dito popular bem conhecido e difundido que se trata de dizer que algo é “presente de grego”. Este ditado popular tem origem na história da Guerra de Tróia, quando os gregos, querendo conquistar a cidade fortificada de Tróia, presentearam os troianos com grandes cavalos de madeira. Os troianos, acreditando que o presente fosse uma declaração de rendição, levaram os grandes cavalos abalroados de guerreiros para dentro dos muros da cidade. Ainda sob a falseta ideia de rendição com vitória, os troianos festejaram e se embebedaram, abrindo margem de ação para os gregos, que, não hesitando, saíram dos cavalos e dominaram a cidade de Tróia, vencendo a guerra. O cavalo de madeira é popularmente conhecido como Cavalo de Tróia.

Cavalo de Troia, analogamente, também é conhecido como Trojan Horse no mundo da computação. Ele é um malware, um programa malicioso, que ao entrar em um computador atua como porta de entrada para vírus e outras pragas digitais. Ele pode estar camuflado em arquivos de musicas, programas, jogos, sites de jogos, entre outras coisas. Nunca que um Cavalo de Troia irá se apresentar como tal. “Olá, sou um Cavalo de Troia e pretendo ser o canal e ferramenta que irá baixar e instalar vírus, malwares, spywares.”.

Feito a introdução, preciso ainda fazer uma segunda inserção que aparentemente nada terá a ver com o assunto, mas se trata de um amalgama para o artigo, ou seja, um elemento de ligação, conexão, uma nóda de Jaca.

Lá em Genesis (Gn 1,26) diz que Deus fez ao homem “à sua imagem e semelhança”. Não é muito complicado de se entender que, de um modo geral, somos o que o criador é. Esse raciocínio é de fundamental importância. Quando olhamos para um quadro, vemos todas as suas cores e formas, nenhuma delas está disposta de forma aleatória. Por mais que não consigamos compreender, de inicio, o significado do que está diante de nossos olhos, se questionarmos o pintor sobre, obteremos informações sobre tudo, até mesmo sobre aquilo que não parece ter significado, a exemplo de um risco aleatório, que deixa de ser tão aleatório por ter sido planejado assim.

Concomitantemente, num plano macro, a sociedade é a imagem e semelhança do homem, pois este em comunidade se reflete naquela. Para evitar qualquer reflexão despropositada, deixo claro que não é possível dizer que, por a sociedade ser a imagem e semelhança do homem, aquela seria a imagem de Deus. Sendo que assim se admitiria o caminho inverso. O homem ser a imagem e semelhança da sociedade, e Deus a imagem e semelhança do homem. Usando, erroneamente, o inverso. A sociedade, bem como a temos, possui culturas, regras sociais, organizações específicas, etc., que provém de como o homem age. Por exemplo, se os “homens” decidirem por um determinado padrão de beleza, o reflexo da sociedade será aquele padrão. Vide futebol e samba.
Um exemplo cabal de como uma determinada ação majoritária reflete como identidade de uma sociedade, a brasileira em plano, é o costume popular de deixar tudo para última hora. Em geral, em datas comemorativas, quanto mais próximo do dia, maior é volume de vendas do comércio. Outra amostra é o que está acontecendo em Cuiabá e Várzea Grande, respectivamente capital e região metropolitana de Mato Grosso. Nestas acontece o cadastro da biometria para as eleições deste ano e, nos postos de cadastramento, os eleitores estão precisando madrugar para conseguir fazê-lo.
Todavia, o cadastro biométrico está disponível desde 2015, tornando-se obrigatório em fevereiro de 2017. Mesmo com o largo período de atendimento, contabiliza-se que pouco mais de 36% do eleitorado compareceu, justificando as filas noturnas por senhas e reforçando o costume de, literalmente, deixar tudo para última hora.

Além do mais, é de conhecimento nacional o “Jeitinho Brasileiro”, meio pelo qual se busca caminhos alternativos que satisfaçam determinadas vontades. Podemos encher de exemplo aqui, tais como: conseguir consulta médica através de contatos dentro do próprio hospital, furar sinal, furar fila, guardar lugar, entre outras coisas. Tais ações poderiam ser consideradas pequenas corrupções e a soma delas personifica uma consciência de corrupção geral.

Pela ONG Transparency International, que criou um ranking de percepção da corrupção no setor público, o Brasil ocupa a posição 79ª (a lista possui 168 países e quanto mais longe estiver das primeiras posições, mais corrupto o país o é), em queda contínua durante os últimos 5 anos. Segundo o Fórum Econômico Mundial (que afere o índice de corrupção indagando líderes empresariais. Mais de 15.000 ao todo), o Brasil é o 4º país mais corrupto do mundo. Atrás apenas de Chade (como diria Legião Urbana: “que país é esse?”), Bolívia e da Venezuela. O site Valor publicou uma matéria sobre o relatório do IMD (uma das escolas mais bem reputadas quando se trata de administração), o Relatório Global de Competitividade. Neste, o Brasil é o 2º mais corrupto, o 2º pior qualificado em termos de eficiência governamental e o 2º que mais tem a cultura da propina arraigada na América Latina.

A consubstanciação do que estou dizendo é a grandeza das noticias que se proliferam pelos canais de mídia (Lava Jato, por exemplo, mas não somente). Pessoas do alto escalão, “servidores públicos”, atrelados a empreiteras de tamanhos colossais, promovendo coligações criminosas através do pagamento de propina em face da degradação da imagem do país e povo. O mesmo povo do “Jeitinho” só que maximizado pelos cargos atribuídos aos agentes.

Porém, mesmo com tantos indicadores e constatações ruins, há o lado positivo (ou a consequência de tanta coisa ruim). Este lado, prefiro eu acreditar, seja a gradual conscientização que o povo do “Jeitinho” está a receber. Mais e mais movimentos pipocam condenando a corrupção enraizada e a abominam. A destarte, a maior revolução que um povo pode fazer está na sábia escolha dos seus comandantes.

Nos últimos anos tivemos a oportunidade de presenciar eventos políticos, com reviravoltas inesperadas, dignos de uma produção hollywoodiana. Tivemos movimentos sindicais, estudantis, incontáveis e plurilocalizáveis. Tudo isto findando no impeachment acometido na ex-presidente. Somado aos escândalos de corrupção (já mencionados). A sociedade do “jeitinho” está atualmente “saturada” e em “ebulição”.

Antes de prosseguir é necessário e importante relembrarmos alguns dos fatos curiosos e tristes, causas que deram efeito a “saturação” e “conscientização”.

Começamos por algumas curiosidades e bizarrices que aconteceram na votação de impeachment.
– Senadora que demonstra a responsabilidade de Deus no processo;
– Parlamentar que, ao proferir o seu voto, parabenizou a neta pelo aniversário;
– Parlamentar que seu voto foi pela paz em Jerusalém (?);
– Parlamentar que invadiu vez de outro para mandar abraço para o filho, pois o tinha se esquecido de fazer na sua vez de votar;
– Parlamentar que votou pelo cristianismo;
– Parlamentar que votou pelos maçons;
– Parlamentar que votou por uma BR (429) (?);
– Parlamentar que votou lembrando-se dos que tem o nome no SPC.

Estes, poucos, são exemplos do que alguns de nossos representantes têm a nos dizer quando estão diante de uma situação histórica. Isso sem falar do que acontece sem os holofotes.
Claramente, houve uma comoção nacional no sentido de aversão pelo o que estavam vendo. No entanto, há de se lembrar que eles estão onde estão por terem sido eleitos, por eleitores que se “identificaram” com as propostas ensejadas por estes políticos. Por conseguinte, arriscando a fala, o povo do “jeitinho” escolheu os que melhor se encaixavam em suas próprias convicções. A destarte, é a projeção da coletividade, em forma de sociedade, escolhendo por aqueles que mais se adéquam a sua imagem.
Aprofundando a reflexão.
A Constituição Federal em seu Titulo I, Dos Princípios Fundamentais, exorta:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[…]
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Por uma leitura leve e despretensiosa é possível concluir que o poder emana do povo, e isto acontece através de representantes eleitos. Assim sendo, quem fora eleito deve manifestar os interesses da população, sendo que o poder que lhe é atribuído só o é por haver cidadãos para lhe embasar.
Entretanto, e quando a sociedade se pronuncia num sentido, o que deverá fazer o político eleito? Obviamente escutá-la. Seria ótimo se isso acontecesse. Mas o que acontece é que, por vezes, os parlamentares votam de acordo com o que é deliberado pelo partido. Basta uma pesquisa rápida pela internet para que notícias de “ameaças de expulsões” e/ou “punições” aos que não seguirem o alinhado pelo partido em que é membro apareçam. Pergunto eu: se a população, que o elegeu, é contra determinado assunto e o partido opta por outra posição, qual deviria seguir o parlamentar? E qual ele segue?
Numa breve reflexão leiga, entendo que o poder emana da população e que após recolhido o poder, ele é exercido por partidários. Vide o Projeto Lei 4850/2016, conhecido com 10 medidas contra a corrupção. Que foi um projeto de iniciativa popular abraçada pelo Ministério Público, assinado por mais de 2 milhões de pessoas, com o fito de fechar o cerco contra a corrupção. Todavia, minguada. Adivinhe por quem…?
Devaneios para avançar na reflexão.
Um dos filósofos sobre a criação do Estado é Thomas Hobbes. Hobbes faz parte de um grupo de outros filósofos conhecidos por ‘Contratualistas’. Faz parte da lista: Rousseau e Locke. Para eles o Estado tem origem num Contrato Social entre os homens, e no autor citado inicialmente, isto está demonstrado no li ‘O Leviatã’. Na obra está contida uma das frases mais conhecida dos jovens que fazem o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio): “o homem é lobo do homem”. Para se proteger e se manter vivo, o homem abre mão de parte de sua liberdade e a entrega para um monstro, o Leviatã, a fim de que este, tendo mais poder que os demais, proteja a ele e a coletividade.
O livro ‘O Leviatã’ foi publicado em 1651 e, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, ainda parece muito atual. Vejamos, não “entregamos” nossa liberdade propriamente dita, mas autorizamos que alguém tome atitudes e decisões por nós. Isto acontece através do sufrágio universal (voto). A pessoa que exerce a sua cidadania (considera-se cidadão aquele que consegue usufruir, gozar, dos seus direitos civis e políticos, ou seja, aquele que vota. A titulo de curiosidade, presos, neste caso, não são considerados cidadãos, pois não votam. Ou você já viu político fazer campanha dentro de presídio?), autoriza que aqueles que ela escolher falem por ela, deste modo, o presidente da república (prefeitos, governadores, senadores, deputados, etc.), por exemplo, possui mais “poderes” e consegue tomar decisões que outras pessoas não conseguem. Podemos, analogicamente, dizer que abrimos mão de parte da nossa liberdade.
Utilizando-se do filósofo Maquiavel e sua obra “O Príncipe”, que foi publicada em 1532, podemos absorver aprendizados grandiosos. Ele dizia que “quando fizer o bem [o príncipe], faça-os aos poucos. Quando for praticar o mal, é fazê-lo de uma vez só.”. Ademais, em seu capítulo XXII (Dos secretários que os príncipes têm junto de si), Nicolau leciona que “a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio,porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas, quando não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.”.
Toda essa volta parece distante de nossa realidade, entretanto, num resumo deste trecho podemos perceber que é exatamente isto que está acontecendo. Demos poder (de decidir) a um presidente (claro que ele chegou lá com o impeachment da ex-presidente, porém, é o que acontece quando o presidente cai, assume o vice. E quem votou num, votou noutro, sendo que não há como separar o voto. Causa e efeito) que já exonerou vários ministros (secretários) e tantos outros pediram para sair, sem se esquecer daquele que, em sua gestão, flexibilizou a definição de trabalho escravo. Outro ponto é o aumento do preço do combustível, que ficou numa montanha russa e agora permanece “estável”, só que caro. Aqui, há uma inversão do que Maquiavel ensina, o mal não fora praticado de uma vez, mas sim várias. E o bem foi bem escasso. Há de se falar sobre os saques de contas inativas do FGTS. É o que me lembro até agora. Só que quando se trata de ser bom com políticos, temos as emendas parlamentares. Segundo o site da Carta Capital, o presidente liberou mais de 10 bilhões em emendas parlamentares em 2017. Há de se falar das denuncias que ele recebeu no mesmo período. Coincidência? Corporativismo?
Ironicamente, a Constituição concorda o Leviatã. Aqui o “monstro” adquire o seu poder através do recolhimento parcial da liberdade de cada um, lá, o “Estado” (através do seu “administrador”) é eleito, recolhendo os votos. Portanto, o poder literalmente emana do povo. E o povo usou o seu poder para tirar a ultima “administradora”, mas por que não usaram o mesmo poder neste último?
Pois bem, 2018 chegou e é ano eleitoral. É de fundamental importância conhecer os “presidenciáveis” e os demais políticos que lançarão candidatura. Temos um bom motivo para isso, o nosso próprio presente.
De mesmo modo como o Cavalo de Tróia que carrega em seu interior os gregos. De mesmo que Trojan Horse é vírus que abre portas para outros males. Devemos investigar o que há por trás de cada candidato. Não deixar tudo para última hora, como de costume. Porque há aqueles que votam nas mulheres/homens mais bonitas (os). Aqueles que trocam seus votos mixarias. Aqueles que não se interessam. Entre outros. Assim, como poderá se concretizar o futuro que queremos se não trabalhamos pode ele?
Sobre os exemplos de eleitores acima citados e a todos, de um modo geral, vale destacar o quanto o que está sendo discutido é importante. Em Mato Grosso, nas cidades de Diamantino e Cáceres, dois hospitais pararam de receber novos pacientes. Hospitais filantrópicos paralisaram atendimentos pelo SUS. Ambos por falta de repasse. Más escolhas e omissão matam, só para lembrar.
Como dito no inicio, o Brasil é conhecido pela corrupção e por tantas outras mazelas. A resposta está na própria sociedade. Os políticos que temos não foram colocados lá por extraterrestres, eles saem do seio das nossas cidades, bairros. Repetindo ainda o começo do texto, se eles estão lá é devido ao fato que pessoas se interessaram em colocá-los lá. Mas, eles são o que queremos? São como queremos? Há quem diga que “se estivesse lá, faria diferente ou mudaria as coisas”, entretanto, não se manifestam neste sentido, e pior, nem se interessam pelo o que acontece.
Uma sociedade corrupta gera frutos corruptos. Uma sociedade que preza pela honestidade, gera frutos honestos. Mas se a sociedade se considera honesta e tem políticos corruptos, deveria ao menos mudá-los, não?
Que sociedade somos e que sociedade queremos ser? Infelizmente, ainda estamos construindo os nossos próprios Cavalos de Troia. Aceitando-os e acolhendo-os.
Nas palavras de Sócrates: Conhece-te a ti mesmo. E nesse caso, conhecer a sociedade que sou e a sociedade em que estou é o melhor método para evitar pres(id)entes de grego.

* Fernando Alves é acadêmico de Direito, estagiário, além de escritor e poeta amador.
@nando_allvez

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