Tremor no Tocantins levanta dúvida em Mato Grosso: é possível prever quando a terra vai tremer?

O registro de um tremor de terra de magnitude 3,7 no sul do Tocantins voltou a colocar os fenômenos sísmicos no centro das discussões no Centro-Oeste brasileiro. Embora o abalo tenha ocorrido a centenas de quilômetros de Mato Grosso, o episódio gerou questionamentos sobre a possibilidade de eventos semelhantes na região e alimentou rumores sobre uma suposta previsão de novos tremores, informação descartada por especialistas.

O abalo foi detectado na madrugada de 4 de setembro, nas proximidades de Sandolândia, município tocantinense com menos de quatro mil habitantes. Apesar da magnitude considerada elevada para os padrões brasileiros, não houve registro de danos materiais nem relatos significativos de moradores afetados pelo fenômeno. O evento foi monitorado pela Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) e analisado pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP).

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Cidade de Palmas - TO
Palmas, TO | Foto: Governo do Tocantins

Boato sobre novo tremor foi desmentido

Após a divulgação do abalo sísmico, mensagens passaram a circular nas redes sociais afirmando que um novo terremoto estaria previsto para ocorrer em setembro. A informação chamou a atenção de moradores de diversas regiões do país, incluindo Mato Grosso, mas foi rebatida por especialistas em sismologia.

Pesquisadores explicam que a ciência ainda não possui tecnologia capaz de determinar exatamente quando, onde e com qual intensidade um terremoto acontecerá. Diferentemente das previsões meteorológicas, que trabalham com modelos atmosféricos e probabilidades, os terremotos continuam sendo eventos impossíveis de prever com precisão.

O que existe atualmente são sistemas de monitoramento que identificam um tremor logo após o início da liberação de energia na crosta terrestre. Em algumas situações, isso permite que comunidades mais distantes recebam alertas poucos segundos antes da chegada das ondas sísmicas.

Por que a terra treme mesmo longe das placas tectônicas?

Uma dúvida frequente surge sempre que um tremor é registrado no Brasil. Afinal, se o país está distante das principais zonas sísmicas do planeta, por que esses eventos acontecem?

A explicação está nas tensões que atuam constantemente sobre a Placa Sul-Americana. Embora o território brasileiro esteja localizado longe das bordas tectônicas, as forças exercidas por placas vizinhas acabam se propagando pela crosta terrestre ao longo dos anos.

Quando a pressão acumulada supera a resistência das rochas, pequenas rupturas podem ocorrer em falhas geológicas existentes. A energia liberada nesse processo se propaga em forma de ondas sísmicas, produzindo os tremores sentidos pela população ou detectados pelos equipamentos de monitoramento.

Mato Grosso também registra atividade sísmica

O tremor registrado em Sandolândia despertou interesse de moradores mato-grossenses porque fenômenos semelhantes já foram identificados em diferentes regiões do estado ao longo dos anos. Embora a maioria dos eventos apresente baixa magnitude, os registros demonstram que a atividade sísmica faz parte da dinâmica natural do território brasileiro.

Especialistas classificam esses episódios como sismicidade intraplaca, fenômeno que ocorre no interior das placas tectônicas e não em suas bordas. Essa característica explica por que os tremores brasileiros normalmente são menos intensos do que aqueles observados em países como Chile, Japão, Indonésia e Peru.

Na prática, a maior parte dos abalos registrados no país não causa prejuízos estruturais e muitas vezes sequer é percebida pela população.

Maior tremor do Tocantins em mais de uma década

O episódio registrado em Sandolândia ganhou destaque porque ficou acima do padrão normalmente observado no Tocantins. Dados da Rede Sismográfica Brasileira apontam que o estado acumula dezenas de registros desde o fim da década de 1980, concentrados principalmente nas regiões sul e central.

Entre os tremores identificados recentemente, o de magnitude 3,7 aparece entre os mais expressivos da última década e é considerado o mais forte registrado no estado desde 2015. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o fenômeno não caracteriza um enxame sísmico nem indica aumento anormal da atividade geológica local.

Monitoramento ajuda a entender o comportamento da crosta terrestre

O Brasil possui uma rede de monitoramento composta por mais de uma centena de estações distribuídas pelo território nacional. Esses equipamentos registram vibrações do solo em tempo real e permitem aos pesquisadores identificar a localização, profundidade e magnitude dos eventos sísmicos.

O trabalho realizado pelas instituições científicas contribui para ampliar o conhecimento sobre a geologia brasileira e fornece dados importantes para estudos de risco geológico, planejamento territorial e segurança de grandes empreendimentos.

Embora terremotos destrutivos sejam extremamente raros no Brasil, o registro ocorrido no Tocantins reforça que o país não está totalmente livre de atividade sísmica. O episódio também serve como alerta para a circulação de informações falsas, já que a previsão exata de terremotos continua fora do alcance da ciência atual.


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