Registros confirmam a existência do raro ‘veado-preto’ em Mato Grosso

Relatos antigos no trecho de Cáceres ganham respaldo científico com a comprovação do melanismo no cervo-do-pantanal, a maior espécie da América do Sul.

Quem vive ou navega pelas comunidades ribeirinhas do Pantanal de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul há tempos ouve causos de um bicho diferente: um cervo de grande porte, totalmente escuro, que surgia como um fantasma em meio à vegetação aquática.

O que durante décadas foi encarado no meio acadêmico como folclore regional acaba de ganhar chancela científica definitiva na revista internacional Notas sobre Mamíferos Sudamericanos.

O estudo, assinado por especialistas da Embrapa Pantanal e da Associação Onçafari, atesta formalmente a existência de espécimes melânicos do cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus). A anomalia genética, extremamente rara na espécie, bloqueia a pigmentação alaranjada padrão e cobre a pelagem do animal com tons pretos.

A rota de Cáceres e o mistério genético

A relevância da descoberta para Mato Grosso conecta o conhecimento empírico dos pantaneiros aos dados de laboratório. O próprio relatório científico destaca que a hipótese do cervo melânico não nasceu nos escritórios, mas nas margens do Rio Paraguai.

Na região de Cáceres, por exemplo, a forte incidência de relatos ao longo de décadas fez com que os moradores batizassem uma área ao redor da Estação Ecológica de Taiamã como “Baía do Cervo Preto”.

O levantamento traz um contraste marcante entre os ecossistemas vizinhos:

  • Escassez no Pantanal: A chance de encontrar um indivíduo preto na planície pantaneira é estimada em “uma em um milhão”, já que apenas um registro oficial foi documentado em um universo de 40 mil animais monitorados ao longo de 40 anos;

  • Frequência no Cerrado: Em áreas do Cerrado, onde o mamífero está severamente ameaçado de extinção, pesquisadores detectaram dois machos melânicos distintos entre 2025 e 2026.

A principal tese dos biólogos para o aparecimento mais frequente no Cerrado envolve o isolamento geográfico. Com as matas fragmentadas, o acasalamento entre animais de parentesco próximo (endogamia) pode estar fazendo com que esse gene recessivo da cor escura se manifeste com mais facilidade.

O artigo científico que oficializou a descoberta foi dedicado à memória do biólogo Diogo Luis Lucatelli Doria Santana, entusiasta do monitoramento de fauna pela Onçafari, falecido antes de ver o trabalho publicado.

Saiba mais sobre o veado-preto pesquisado em Mato Grosso

O veado-preto nada mais é do que um indivíduo de determinada espécie de cervídeo que nasce com melanismo, uma alteração genética rara que altera radicalmente a sua aparência.

Em condições normais, a maioria dos veados possui pelagem em tons de marrom, castanho-avermelhado ou acinzentado (que servem para camuflagem no seu ambiente nativo). No entanto, o animal melânico apresenta uma pigmentação escura extremamente acentuada, cobrindo o corpo com tons que variam do marrom-chocolate profundo ao preto uniforme.

Como funciona a condição genética?

  • Mutação no Gene MC1R: O melanismo costuma ser causado por mutações genéticas (comumente no gene do receptor de melanocortina 1, o MC1R), que estimulam as células a produzirem um excesso de eumelanina (o pigmento responsável pelas cores escuras/pretas).

  • Herança Recessiva: Essa característica costuma ser recessiva. Isso significa que o filhote só nascerá preto se herdar o gene alterado tanto do pai quanto da mãe. Se apenas um dos pais transmitir o gene, o filhote nascerá com a cor normal da espécie.

  • Ocorrência em Várias Espécies: O fenômeno pode acontecer em diferentes cervídeos pelo mundo — como no veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) na América do Norte ou no cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) na América do Sul.

Vantagens e Desvantagens na Natureza

Enquanto a pelagem preta é uma mutação muito valorizada visualmente e considerada um troféu raro por observadores da fauna, para o próprio animal ela traz grandes desafios de sobrevivência:

  • Perda de Camuflagem: O animal perde a capacidade de se misturar com a vegetação seca e capinzais, tornando-se um alvo fácil para grandes predadores (como onças ou lobos);

  • Estresse Térmico: A cor escura absorve mais calor da radiação solar, o que exige mais esforço do corpo para regular a temperatura em climas tórridos e tropicais.

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