População em situação de rua cresce mais de 10% em MT

Levantamento aponta 4.068 pessoas vivendo nas ruas em Mato Grosso, com aumento expressivo e capacidade de acolhimento muito abaixo da demanda.

O crescimento acelerado da população em situação de rua já ultrapassa a capacidade de resposta do poder público em Mato Grosso. Em dezembro de 2025, o Estado contabilizou 4.068 pessoas vivendo nas ruas, número que escancara um cenário de pressão sobre a rede de assistência e filas constantes por vagas em abrigos.

O dado representa um aumento em relação ao ano anterior, quando havia 3.603 registros. O levantamento foi elaborado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, com base em informações do Cadastro Único, e aponta que a procura por acolhimento supera, com folga, a estrutura disponível nas prefeituras.

Embora a capital concentre a maior parte dos registros, o fenômeno está longe de ser isolado. Cuiabá aparece no topo da lista, com 1.758 pessoas vivendo nas ruas, mas cidades como Rondonópolis, Cáceres e Lucas do Rio Verde também figuram entre os principais polos do problema. O avanço em municípios economicamente relevantes indica que a vulnerabilidade social não se restringe a um único perfil urbano.

Esse contingente equivale a cerca de 0,11% da população estadual, estimada em mais de 3 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE. O percentual pode parecer pequeno à primeira vista, mas o impacto se torna evidente quando se observa a estrutura disponível para atendimento. Afinal, onde acolher quem procura ajuda diariamente?

Perfil e fatores que levam ao desabrigo

O relatório detalha quem são essas pessoas e como chegaram à rua. A maioria absoluta, 94%, vive sozinha. Apenas 6% estão acompanhadas de familiares. Um dado que chama atenção é o tempo de permanência: 1.572 pessoas relataram estar nessa condição há cerca de seis meses, o que aponta para um fluxo recente e contínuo de novos vulneráveis.

Entre os principais motivos que levam à perda do teto estão o alcoolismo e o uso de drogas, com 1.359 registros, seguidos de perto pelo desemprego, que aparece em 1.333 casos. Problemas familiares somam 1.274 registros, enquanto a perda direta da moradia foi citada por 751 pessoas. São fatores que, muitas vezes, se sobrepõem e empurram o indivíduo para uma ruptura difícil de reverter.

O distanciamento familiar surge como um dos entraves mais severos para a ressocialização. Segundo o levantamento, 1.517 pessoas afirmaram não manter qualquer contato com parentes fora da rua. Sem esse vínculo, a reconstrução de uma rotina estável se torna ainda mais complexa. Como retomar quando não há para onde voltar?

Baixada Cuiabana sob forte pressão

Na Baixada Cuiabana, a sobrecarga da rede socioassistencial é evidente. Ao longo de 2025, as prefeituras de Cuiabá e Várzea Grande registraram mais de 6 mil atendimentos. Somente na capital, 5.010 pessoas diferentes passaram pelos serviços entre janeiro e novembro.

Apesar da alta demanda, a estrutura física segue limitada. Cuiabá dispõe de apenas 250 vagas institucionais. Entre o fim de 2024 e 2025, foram contabilizadas 10.410 solicitações de acolhimento, mas somente 2.931 vagas puderam ser efetivamente ocupadas. Em Várzea Grande, o quadro é ainda mais restritivo, com apenas 20 vagas rotativas para atender 1.186 usuários cadastrados no Centro POP.

A disparidade entre o número de pessoas nas ruas e as vagas disponíveis evidencia um gargalo estrutural. De acordo com os dados do Observatório, a tendência é de manutenção da pressão sobre os serviços enquanto não houver expansão de políticas públicas e criação de abrigos permanentes capazes de responder ao déficit social que se aprofunda no Estado.

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