Ministério Público Federal investiga se agrotóxicos estão adoecendo indígenas em Mato Grosso

Estudo da UFMT descobre defensivos agrícolas — incluindo substância proibida por lei — em 88% das plantas medicinais de reserva no oeste do estado; comunidade relata surto de abortos e dores

O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para apurar uma denúncia alarmante na Terra Indígena Tirecatinga, localizada em Sapezal, polo agrícola de Mato Grosso.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) descobriu que o veneno das lavouras vizinhas foi parar justamente nas plantas medicinais cultivadas pelo povo Nambikwara: 88% das amostras testadas estavam contaminadas.

O caso acendeu o sinal de alerta na comunidade, que divide o território com os povos Terena, Manoki e Haliti. Entre os químicos encontrados pelos cientistas está o carbofurano, um defensivo de altíssima toxicidade banido no Brasil e na União Europeia, além de outros quatro componentes largamente usados no plantio de grãos. O município de Sapezal é, hoje, o segundo maior consumidor de agrotóxicos de Mato Grosso.

O drama nas aldeias: da falta de ar aos abortos

Os efeitos dessa exposição silenciosa já começaram a aparecer no cotidiano dos 244 moradores da reserva. Lideranças locais relataram aos procuradores da República um aumento incomum de problemas de saúde, que vão desde crises respiratórias crônicas e dores de cabeça incapacitantes até casos frequentes de aborto espontâneo entre as mulheres.

A portaria do MPF, assinada pelo procurador Gabriel Martins, pondera que ainda não existe um laudo científico que ligue diretamente o adoecimento aos defensivos. O objetivo do inquérito é justamente cruzar esses dados, monitorar a comida e a água consumidas na reserva, e fiscalizar se as fazendas ao redor estão fazendo pulverizações irregulares (como despejo aéreo em dias de vento forte).

Acionado pela reportagem, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT) informou que ainda não recebeu a notificação oficial do MPF e que só vai se manifestar após analisar o caso.

Território também sofre com a seca e perde 75% dos rios

Para além do fantasma da contaminação química, a sobrevivência na TI Tirecatinga esbarra em outro problema crítico: a escassez de água. Dados de satélite do projeto MapBiomas Água, analisados pela organização InfoAmazonia, mostram que as fontes hídricas da reserva estão desaparecendo em ritmo acelerado.

Nas últimas quatro décadas, o espelho d’água formado por rios e lagoas dentro do território encolheu impressionantes 75% — um sumiço de 283 hectares de água. Esse estresse hídrico coloca a área indígena entre as cinco mais secas de toda a bacia do Alto Juruena, onde o avanço do desmatamento e das monoculturas no entorno tem secado os mananciais muito mais rápido do que a média histórica da região.

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