Cursos de Medicina crescem 350% em MT enquanto entidades cobram exame para novos médicos

Mato Grosso passou de dois para nove cursos de Medicina em duas décadas. Nova regra exige exame para registro apenas de estudantes que ingressaram a partir de 2026.

Mato Grosso ampliou de dois para nove o número de cursos de Medicina em duas décadas, um crescimento de 350%. No mesmo período, o total de médicos registrados no estado passou de quase 3 mil para cerca de 13 mil, alta de 333%, segundo levantamento citado pela reportagem de A Gazeta.

A expansão ocorre em meio à aprovação, pelo Congresso Nacional, de uma nova exigência para o exercício da profissão: a aprovação em um exame de avaliação da formação médica. A regra, no entanto, só valerá para estudantes que ingressaram na graduação a partir de junho de 2026, adiando a cobrança para obtenção do registro profissional até o fim de 2032 ou 2033.

Atualmente, os nove cursos em funcionamento no estado oferecem 680 vagas anuais autorizadas pelo Ministério da Educação (MEC), distribuídas em sete municípios. Considerando esse volume, cerca de 5 mil novos profissionais poderão ingressar no mercado antes de serem submetidos à nova exigência para obter o registro.

O conselheiro do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT), Diogo Sampaio, considera que o principal problema está no prazo para a implementação da medida. Ele defende que o exame seja exigido também dos estudantes que estão concluindo a graduação, em um modelo semelhante ao adotado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

A nova regra não elimina as avaliações realizadas durante a formação. As faculdades continuarão aplicando provas acadêmicas, e o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) já é utilizado para avaliar os cursos. A diferença está na obrigatoriedade de aprovação em exame para a obtenção do registro profissional, restrita aos estudantes que ingressarem a partir de junho de 2026.

Qualidade da formação médica preocupa entidades

Sampaio também questiona os possíveis efeitos das novas regras sobre a fiscalização das instituições de ensino. Na avaliação dele, mudanças nas sanções aplicáveis a cursos com desempenho insuficiente podem enfraquecer os mecanismos de controle da qualidade da formação. A preocupação depende, porém, de como as regras de supervisão do MEC serão interpretadas e aplicadas.

Os resultados nacionais do Enamed reforçam o debate sobre a qualidade do ensino. Dos 351 cursos avaliados no país, cerca de 30% receberam conceitos 1 ou 2, considerados insatisfatórios em uma escala que vai até 5.

O presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso (Sindmed-MT), Adeildo Lucena, também considera o exame necessário. Para ele, a medida evidencia falhas na fiscalização das faculdades, especialmente diante da abertura de instituições sem estrutura adequada para garantir a formação dos futuros profissionais.

“Eu vejo como uma necessidade em função da ineficiência do Estado em fiscalizar essas novas faculdades que abrem a cada momento”, afirmou Lucena. Ele comparou a exigência à revalidação de diplomas de médicos formados no exterior e defendeu que os profissionais graduados no Brasil também comprovem sua capacidade antes de atender a população.

“Não dá para formar um médico sem qualidade, não dá para colocar um profissional sem a devida formação para atender a população”, ressaltou o presidente do sindicato.

O diretor-geral do Hospital Santa Helena, em Cuiabá, Marcelo Sandrin, avalia que a criação do exame também evidencia falhas do poder público na fiscalização do ensino médico. Ele estima que, nos próximos cinco anos, o mercado poderá receber de 30% a 40% mais profissionais com possíveis deficiências na formação, caso o problema não seja enfrentado.

Sandrin considera lamentável a continuidade de instituições sem condições adequadas de funcionamento e defende o fechamento de cursos que não ofereçam estrutura e ensino de qualidade. Na avaliação dele, a responsabilidade pela formação insuficiente não deve ser transferida exclusivamente aos recém-formados.

Com a nova exigência prevista para produzir efeitos apenas a partir do fim de 2032 ou de 2033, o debate envolve tanto a avaliação individual dos futuros médicos quanto a fiscalização das faculdades. A aplicação das regras de supervisão e a capacidade de garantir uma formação adequada permanecem no centro das preocupações apresentadas pelas entidades e pelos representantes do setor.

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