Clube do Livro promove leitura e ressocialização para 40 pessoas privadas de liberdade em Cáceres

Projeto reúne 40 detentos em atividades literárias e estimula reflexão, conhecimento e preparação para o retorno à sociedade.

O Clube do Livro em Cáceres reúne cerca de 40 pessoas privadas de liberdade em atividades de leitura e discussão de obras literárias. A iniciativa busca estimular a reflexão, a expressão individual e a ressocialização dentro das unidades prisionais do município, a 220 quilômetros de Cuiabá.

O projeto ganha destaque nesta quinta-feira (29), quando é celebrado o Dia Nacional do Livro. A ação é resultado de uma parceria entre o Poder Judiciário de Mato Grosso e a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), por meio de um projeto de extensão universitária.

Como funciona o Clube do Livro em Cáceres

As atividades começaram a partir de um convite do juiz José Eduardo Mariano, titular da 1ª Vara Criminal e da Vara de Execução Penal de Cáceres, além de juiz corregedor das unidades prisionais do município, ao curso de Direito da Unemat.

A coordenação é do professor doutor Juliano Moreno Kersul de Carvalho. A proposta tem como referência o Clube do Livro Capitu, desenvolvido desde 2022. Em 2024, a iniciativa foi institucionalizada pela 1ª Vara Criminal de Cáceres e, em 2025, passou a integrar os projetos de extensão da universidade.

Atualmente, o projeto atende aproximadamente 40 participantes, divididos igualmente entre as unidades feminina e masculina. Cada semestre prevê 16 encontros presenciais, com duas horas de duração por reunião.

Durante as sessões, os participantes fazem leituras em voz alta de contos e crônicas da literatura brasileira. Depois, participam de rodas de conversa para compartilhar interpretações, lembranças e experiências pessoais relacionadas às obras.

Literatura estimula reflexão e novas perspectivas

O objetivo do Clube do Livro vai além do ensino da leitura e do aprimoramento da escrita. Segundo o coordenador Juliano Moreno Kersul de Carvalho, a proposta é desenvolver a sensibilidade literária e criar um ambiente em que os participantes possam se expressar e trocar experiências.

“Ler literatura desenvolve nossa capacidade de imaginar outros mundos, de pensar nossa vida a partir das narrativas que nos são apresentadas. No processo de reeducação, essa habilidade é essencial para a construção de um novo horizonte para quem está cumprindo pena”, afirma o professor.

Entre os autores trabalhados estão Clarice Lispector, Luís Fernando Veríssimo e Armando Nogueira. As obras já motivaram conversas sobre infância, valores pessoais e futebol, mostrando como a literatura pode despertar memórias e aproximar diferentes experiências de vida.

Além de ampliar o vocabulário e favorecer a interpretação de textos, a leitura estimula o pensamento crítico, a comunicação e o acesso ao conhecimento. Essas habilidades podem contribuir para o desenvolvimento pessoal e para a preparação dos participantes para o retorno à convivência social.

Remição pela leitura alcança unidades prisionais de MT

O incentivo à leitura também faz parte das políticas de remição de pena, que permitem reduzir o tempo de condenação por meio da participação em atividades educacionais, conforme as regras estabelecidas.

Segundo informações da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT), com base em levantamento do Núcleo de Educação do Sistema Penitenciário (NESP), o Projeto de Remição pela Leitura consta como iniciado em 38 das 41 unidades prisionais de Mato Grosso.

Dados da Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT) indicam que o número de participantes aumentou de 4.205, em outubro de 2025, para 5.356, em outubro de 2026.

A remição pela leitura é regulamentada pela Instrução Normativa nº 01/2023-GMF/TJMT e pela Resolução nº 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Pelas regras informadas, cada obra lida e aprovada pode resultar em quatro dias de redução da pena, respeitado o limite de 48 dias por ano.

Para solicitar o benefício, a pessoa privada de liberdade precisa comprovar a leitura por meio de atividades avaliativas, como resenhas ou relatos orais, de acordo com os critérios aplicáveis. Uma comissão analisa os trabalhos, e a concessão da remição depende de decisão do Juízo da Execução Penal.

Leitura como caminho para a reintegração social

O Clube do Livro em Cáceres mostra como as atividades culturais podem ampliar as oportunidades de reflexão durante o cumprimento da pena. Ao incentivar a escuta, o diálogo e o contato com a literatura, o projeto cria espaços para que os participantes interpretem suas experiências e considerem novas perspectivas para o futuro.

A proposta também reforça o papel da educação e da cultura nas ações de ressocialização, aproximando a universidade e o Judiciário de iniciativas voltadas à reintegração social de pessoas privadas de liberdade.

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