Em Mato Grosso, a tentativa de disfarçar barbaridade como “mero desacordo trabalhista” não cola mais no tribunal.
Água de beber tirada de poço aberto onde a boiada pisava, galões de veneno guardados no chão do próprio quarto e zero carteira assinada.
Para a Justiça Federal, a cena flagrada em Pontal do Araguaia não deixa margem para rodeios: é crime de trabalho escravo.
A 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região — corte que analisa as apelações do nosso estado — bateu o martelo e manteve a condenação criminal de dois homens. Eles são acusados de explorar mais de 20 seringueiros no interior. Os magistrados até reduziram o tempo total de pena fixado pela Justiça em Cuiabá, mas deixaram a condenação de pé.
O recado foi direto: para dar cadeia por escravidão, o trabalhador não precisa estar acorrentado. A perda total da dignidade humana já basta para fechar a conta.
O retrato da degradação no meio do mato
A devassa dos fiscais do trabalho expôs como o lucro fácil rifou a vida de quem tirava o látex da terra:
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Sede dividida com a boiada: A água potável saía de uma nascente aberta, usada ao mesmo tempo pelo gado da fazenda;
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Dormindo com o perigo: Galões de agrotóxico ficavam empilhados do lado dos colchões, sem nenhuma máscara ou proteção para os trabalhadores;
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Barracos sem tranca: O grupo dormia em alojamentos com fiação exposta, telhas quebradas e sem fecho nas portas, expostos a tempestades e bichos peçonhentos;
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Sem banheiro: No meio da mata, a única opção para as necessidades fisiológicas era o relento.
A defesa dos fazendeiros ainda tenta jogar a última cartada com novos recursos. A decisão final cabe agora aos desembargadores da Segunda Seção do tribunal.
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