A força simbólica da obra Tarsila do Amaral volta ao centro do debate cultural com a abertura da exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União, em Brasília. A mostra, que começa nesta quarta-feira (11) e tem entrada gratuita, reúne 63 trabalhos da pintora modernista.
Entre as obras expostas está “Operários” (1933), tela que retrata 51 trabalhadores da indústria com expressões sérias e cansadas diante de fábricas e chaminés. Em meio às discussões no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6 por 1, o quadro ganha novo significado ao provocar reflexões sobre direitos, rotina exaustiva e acesso à cultura e ao lazer.
Para a publicitária Paola Montenegro, sobrinha bisneta da artista e responsável pela gestão de seu legado, a obra mantém atualidade impressionante. Segundo ela, “Operários” permite que os brasileiros se reconheçam na cena e reflitam sobre a importância do tempo livre e de direitos básicos.
A exposição também marca o centenário da primeira mostra individual realizada pela artista em Paris. Com curadoria das pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, a organização prioriza núcleos temáticos em vez de uma ordem cronológica, destacando diferentes fases e perspectivas da pintora.
Olhar social e transformação
Além de “Operários”, a seleção inclui obras como “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950), que abordam desigualdade e exploração sob o eixo temático do “olhar o outro”. As curadoras ressaltam que a produção de Tarsila revela múltiplas camadas, desde os trabalhos figurativos da década de 1910 até o aprofundamento do olhar social a partir dos anos 1930.
Rachel Vallego destaca que a virada temática coincide com mudanças na vida pessoal da artista, especialmente após as perdas financeiras da família de cafeicultores com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. A partir desse período, a pintora passa a refletir de maneira mais crítica sobre as estruturas sociais.
Obras icônicas como “Abaporu”, criada em 1928 e hoje pertencente a um museu na Argentina, evidenciam a influência modernista e a construção de uma identidade artística que dialoga com questões culturais, religiosas e ambientais, além de críticas às desigualdades.
Experiência imersiva
Um dos destaques da mostra é uma sala imersiva com videografismo que combina o símbolo do sapo, recorrente na obra da artista, a animações inspiradas em quadros como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “Cartão Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). O conteúdo foi desenvolvido sem uso de inteligência artificial e busca aproximar o público, especialmente crianças, do universo criativo da pintora.
A proposta, segundo Paola Montenegro, é proporcionar um mergulho na história do Brasil, no olhar sobre o outro e na dimensão imaginativa da artista, reconhecida como uma mulher à frente de seu tempo.
Legado e educação
A pesquisadora Rachel Vallego também aponta traços que podem ser considerados feministas na trajetória de Tarsila do Amaral, como a decisão de interromper um casamento na década de 1910 e seguir carreira artística com apoio da família.
A diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, informa que a exposição permanece em cartaz até 10 de maio. Durante o período, a expectativa é ampliar a visitação de escolas e universidades, reforçando o acesso ao pensamento e à obra de uma das principais artistas plásticas do país.
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