O conceito de blackwashing é usado para descrever estratégias em que empresas adotam discursos ligados ao antirracismo como forma de fortalecer suas marcas, sem necessariamente promover mudanças profundas em suas estruturas.
Um estudo elaborado por pesquisadores da organização não governamental ACT Promoção da Saúde analisou como essa prática funciona e quais estratégias de comunicação são utilizadas por corporações para construir uma imagem de compromisso com a equidade racial.
O levantamento, publicado no fim de junho, reúne uma análise de práticas de comunicação e marketing adotadas por empresas que, segundo os pesquisadores, podem apresentar uma postura antirracista apenas de forma simbólica.
O que é blackwashing
Em tradução livre, blackwashing significa algo como “lavagem racial” e faz referência à tentativa de maquiar ações relacionadas à diversidade racial. O termo segue uma lógica semelhante a outros conceitos, como greenwashing, relacionado à aparência de responsabilidade ambiental, e pinkwashing, associado à apropriação de pautas LGBTQIA+.
Os autores definem blackwashing como uma “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.
A crítica central é que algumas iniciativas apresentam uma imagem de apoio à justiça racial, mas não enfrentam as desigualdades estruturais existentes dentro das organizações e da sociedade.
Os pesquisadores identificaram oito formas de manifestação do blackwashing:
Divulgação seletiva: empresas destacam avanços em determinadas áreas, mas deixam de apresentar informações sobre pontos em que não houve evolução ou ocorreram retrocessos.
Políticas e reivindicações vazias: criação de ações divulgadas como grandes transformações, mas com pouca capacidade de alterar práticas internas.
Certificações duvidosas: uso de selos ou reconhecimentos externos para associar produtos e empresas à promoção da igualdade racial.
Apoio e parceria com organizações cooptadas: aproximação com entidades ligadas à pauta racial para reforçar a credibilidade de iniciativas corporativas.
Programas voluntários sem eficiência: implementação de projetos e códigos de conduta sem mecanismos suficientes para garantir resultados.
Narrativas e discursos enganosos: campanhas de marketing que apresentam a empresa como referência no combate ao racismo sem considerar seu histórico.
Marcas enganosas: utilização de símbolos, influenciadores e estratégias de comunicação para transmitir uma imagem antirracista.
Acesso e influência na formulação de políticas: atuação em espaços de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra para influenciar debates e percepções públicas.
Baixa representatividade em cargos de liderança
O estudo também destaca dados de um levantamento do Instituto Ethos realizado com as 1,1 mil maiores empresas do Brasil sobre a presença de pessoas negras em posições de comando.
Apesar de 55,5% da população brasileira se declarar preta ou parda, esse grupo representa menos de 6% dos conselhos empresariais e menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria.
Segundo os pesquisadores, muitas empresas divulgam iniciativas relacionadas à diversidade, mas não apresentam informações transparentes sobre a composição racial de suas lideranças.
O relatório aponta que o blackwashing não deve ser visto apenas como uma falha isolada de comunicação, mas como uma prática que pode contribuir para a manutenção das desigualdades raciais.
Para os autores, combater essa prática exige medidas que atuem sobre as estruturas que permitem a reprodução dessas desigualdades, além de críticas pontuais ou compromissos apenas no discurso.
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