A falta de dados históricos e a quantidade limitada de sensores dificultam o monitoramento dos tsunamis meteorológicos no litoral brasileiro. O fenômeno registrado na costa sul de Santa Catarina em 21 de setembro foi identificado com auxílio de imagens feitas por moradores, câmeras e equipamentos instalados em ruas, veículos e embarcações.
Os registros ajudaram pesquisadores a localizar o momento da ocorrência e a direcionar a análise das informações coletadas pela rede profissional de monitoramento. As informações são da Agência Brasil.
Apesar da maior disponibilidade de imagens atualmente, ainda não é possível estabelecer com que frequência os tsunamis meteorológicos acontecem no litoral do país. A ausência de séries históricas dificulta a identificação de tendências e a avaliação de possíveis mudanças na ocorrência desses eventos.
Segundo o professor Mauro Michelena, da área de Oceanografia Física da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), o monitoramento da região é relativamente recente. A ocupação mais intensa das áreas próximas à costa também ocorreu principalmente nas últimas décadas, o que reduz a quantidade de registros antigos disponíveis.
Como ocorre o fenômeno
O tsunami meteorológico é um fenômeno rápido provocado pela interação entre sistemas atmosféricos, o oceano e características específicas da costa. Em locais de menor profundidade, determinadas perturbações atmosféricas podem alterar o nível do mar e produzir ondas mais intensas.
Eventos extremos ligados ao clima e ao oceano são estudados em diferentes partes do mundo. No entanto, Michelena afirma que os dados disponíveis ainda não permitem concluir que os tsunamis meteorológicos estejam ocorrendo com maior frequência.
A própria frente fria relacionada ao fenômeno pode representar perigo para pequenas embarcações. Na segunda-feira (28), o professor estava no mar com professores e estudantes da Univali para instalar sensores quando a equipe precisou interromper a atividade e retornar devido às condições marítimas.
Rede de sensores
Um dos principais obstáculos para a pesquisa é a falta de séries históricas extensas. De acordo com Michelena, modelos usados para analisar fenômenos desse tipo precisam de registros acumulados durante várias décadas e, em determinadas situações, de mais de cem anos para serem validados.
No litoral de Santa Catarina, o acompanhamento por marégrafos tem aproximadamente uma década. O pesquisador participa do monitoramento dos litorais catarinense e gaúcho e também estuda as condições dos estuários da região.
A quantidade de equipamentos disponíveis é outro fator que limita a análise. Michelena cita Portugal como exemplo: o país possui cerca de 940 quilômetros de litoral e conta com mais marégrafos do que todo o Brasil, que tem mais de 7.360 quilômetros de costa.
Em Santa Catarina, com pouco mais de 560 quilômetros de litoral, a rede de sensores é formada principalmente por equipamentos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
Os equipamentos contribuíram para a identificação de eventos registrados em novembro de 2023 e em 21 de setembro deste ano. Entretanto, a rede está configurada principalmente para realizar registros de hora em hora, o que reduz a capacidade de acompanhar fenômenos que podem surgir e desaparecer em poucos minutos.
Por isso, os dados dos sensores precisam ser complementados por imagens e relatos de moradores, pescadores e outras pessoas que estejam próximas dos locais afetados. Para o pesquisador, uma quantidade maior de informações seria necessária antes do desenvolvimento de sistemas capazes de prever as ocorrências.
Uma rede mais ampla de sensores, com registros realizados em intervalos menores, poderia futuramente contribuir para sistemas específicos de acompanhamento e alerta. Atualmente, o país já conta com mecanismos de alerta voltados a fenômenos como deslizamentos e chuvas intensas.
Registros e conhecimento local
A escassez de registros também impede determinar se os tsunamis meteorológicos são fenômenos recentes. Segundo Michelena, ocorrências semelhantes podem ter acontecido em décadas anteriores sem terem sido reconhecidas ou documentadas.
O litoral sul de Santa Catarina possui características que podem favorecer ondas de maior energia. Há trechos mais expostos ao oceano e a região sofre influência de sistemas atmosféricos que se formam relativamente próximos da costa.
De acordo com o oceanógrafo, o litoral Sul recebe ondas mais altas e energéticas vindas do sul do Atlântico, enquanto os sistemas atmosféricos também podem se formar mais perto dessa faixa costeira do que em áreas do litoral paulista e fluminense.
Essas condições podem contribuir para situações mais intensas no mar, mas ainda são necessários mais dados para estabelecer uma relação entre essas características e a frequência dos tsunamis meteorológicos.
Os pesquisadores também consideram importantes os relatos de pescadores, que acumulam experiência sobre o comportamento do mar nas regiões onde trabalham. Esse conhecimento tradicional é utilizado como fonte complementar de informação.
Michelena, porém, observa que as mudanças nas condições do oceano e da atmosfera também afetam esse conhecimento. Segundo ele, alterações no comportamento do mar fazem com que pescadores recorram cada vez mais a serviços meteorológicos, enquanto o conhecimento adquirido ao longo das gerações passa por um processo gradual de adaptação.
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