O atraso de aproximadamente R$ 141 milhões nos repasses do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) está acendendo um alerta entre produtores, seguradoras e entidades ligadas ao agronegócio brasileiro. O problema vai além de uma questão burocrática e pode impactar diretamente o custo dos seguros, o acesso dos produtores à proteção contra perdas climáticas e até mesmo o planejamento da próxima safra.
O alerta consta em uma nota técnica divulgada pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR), da Fundação Getulio Vargas Agro (FGV Agro), que aponta riscos para toda a cadeia produtiva caso a situação não seja regularizada rapidamente.
Segundo o levantamento, os valores em atraso referem-se a apólices contratadas em 2025 dentro do programa federal que subsidia parte do custo do seguro rural.
Como funciona o Seguro Rural
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural é considerado uma das principais ferramentas de gestão de risco da agricultura brasileira.
Por meio dele, o governo federal paga parte do valor do seguro contratado pelos produtores. Em média, a subvenção cobre cerca de 30% do custo das apólices.
Somente em 2025, mais de 64 mil contratos foram firmados pelo programa, sendo a soja a cultura com maior participação.
Na prática, o mecanismo permite que produtores tenham acesso a uma proteção mais acessível contra perdas causadas por seca, excesso de chuva, geadas e outros eventos climáticos.
Efeito pode chegar ao bolso do produtor
O estudo da FGV Agro destaca que os atrasos obrigam as seguradoras a absorver temporariamente custos que deveriam ser ressarcidos pelo governo.
Diante desse cenário, as empresas tendem a adotar medidas para reduzir riscos financeiros, o que pode resultar em consequências diretas para os produtores rurais.
Entre os possíveis efeitos estão a redução da oferta de seguros, o endurecimento dos critérios para contratação, a diminuição das coberturas oferecidas e o aumento do preço das apólices.
Além disso, determinadas culturas e regiões podem enfrentar maior dificuldade para conseguir cobertura, especialmente em áreas consideradas de maior risco climático.
Momento preocupa o agronegócio
A situação ocorre em um período considerado delicado para o setor agropecuário.
Nos últimos anos, produtores enfrentaram aumento dos custos de produção, margens mais apertadas e dificuldades relacionadas ao crédito rural. Agora, a perspectiva climática também preocupa.
Modelos meteorológicos acompanham a possibilidade de formação de um evento El Niño mais intenso nos próximos meses, fenômeno que pode alterar o regime de chuvas em importantes regiões produtoras do país.
Nesse contexto, especialistas avaliam que a redução do acesso ao seguro rural aumenta a vulnerabilidade financeira dos produtores diante de possíveis perdas nas lavouras.
Corte no orçamento agrava cenário
Outro fator que contribui para a preocupação é a redução dos recursos destinados ao programa.
O orçamento do Seguro Rural sofreu forte corte, passando de R$ 1,01 bilhão para R$ 473,8 milhões.
A diminuição dos recursos amplia as dúvidas sobre a capacidade de o governo manter os pagamentos em dia e garantir a continuidade da política pública nos próximos anos.
O que especialistas recomendam
Para reduzir os riscos ao programa, a FGV Agro recomenda a regularização imediata dos pagamentos pendentes e a divulgação de um cronograma público dos repasses.
O estudo também sugere maior transparência na execução orçamentária, revisão das regras contratuais e recomposição dos recursos destinados ao Seguro Rural.
Especialistas destacam que a previsibilidade é essencial para manter a confiança de produtores e seguradoras. Sem essa segurança, o seguro rural corre o risco de perder eficiência justamente em um momento em que eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes.
Para o agronegócio brasileiro, especialmente em estados líderes na produção de grãos como Mato Grosso, a estabilidade do programa é vista como uma peça fundamental para reduzir riscos e garantir maior segurança econômica ao produtor durante as próximas safras.
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