Ludopatia leva apostadores a perder dinheiro e família

Casos mostram como o vício em apostas afeta a saúde mental, provoca endividamento e exige acompanhamento profissional.

O avanço das apostas online tem levado pessoas em situação de vulnerabilidade a procurar atendimento para problemas relacionados ao jogo. Em diferentes casos, o comportamento compulsivo provoca perdas financeiras, conflitos familiares, endividamento e agravamento de problemas de saúde mental.

Kaio*, de 42 anos, viveu uma dessas situações no Distrito Federal. Em uma madrugada de julho, enquanto a esposa e os dois filhos dormiam, ele recebeu anúncios de apostas no celular. Inicialmente, ficou animado, mas perdeu R$ 1 mil, depois R$ 2 mil e, em poucos minutos, R$ 5 mil.

O dinheiro havia sido emprestado por um amigo para que ele quitasse dívidas com agiotas contraídas em razão de outras apostas. Mesmo diante do prejuízo, Kaio continuou pensando em apostar para tentar recuperar o valor perdido.

Em determinado momento, o filho mais velho pediu que ele o levasse até a casa da avó. Kaio concordou, mas permaneceu concentrado no celular. Segundo o relato, passaram-se mais de três horas até que ele percebesse que o menino não estava mais por perto. A perda da noção do tempo é apontada como um dos sinais associados à ludopatia, transtorno relacionado ao controle dos impulsos diante de jogos.

Dívidas provocaram perda de bens e separação

Kaio conta que conheceu as apostas durante períodos de descanso enquanto trabalhava como motorista de uma prefeitura em uma cidade de Goiás. O envolvimento aumentou após ele apresentar sintomas de depressão relacionados à morte do pai, vítima de câncer.

As dívidas fizeram com que ele vendesse o carro financiado, depois móveis e, posteriormente, a casa da família. A esposa foi informada sobre a situação dois dias antes da mudança. O casal se separou e as dívidas ultrapassaram R$ 200 mil.

Mesmo com a venda do carro e do imóvel, o dinheiro não foi suficiente para quitar os débitos. Kaio também deixou o emprego e utilizou a rescisão para pagar novas dívidas. Depois, buscou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal.

No serviço, passou a participar de grupos terapêuticos e recebeu acompanhamento profissional. Ele relata que utiliza três medicamentos por dia e considera os encontros importantes para não se sentir isolado. Atualmente, trabalha em uma escola no interior de Goiás, na reposição de alimentos, e afirma estar tentando reconstruir a vida.

Vulnerabilidade aumenta os riscos

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas das classes C e D estão entre as mais atingidas pelo problema. Segundo ela, parte desse público busca melhorar a própria condição financeira e acaba exposta a publicidade e informações que podem apresentar as apostas de maneira enganosa.

Moradores de comunidades periféricas e pessoas com renda próxima ao salário mínimo podem ser especialmente vulneráveis. Anúncios que apresentam as apostas como forma de complementar a renda contribuem para uma percepção distorcida sobre os riscos do jogo.

De acordo com a especialista, o desejo por retornos rápidos pode levar pessoas a acreditar que as apostas representam uma oportunidade financeira. O contexto social, por sua vez, amplia os impactos das perdas, já que o dinheiro comprometido pode fazer falta para a manutenção da família.

A psiquiatra também alerta para os efeitos sobre a saúde mental. O endividamento progressivo pode contribuir para o agravamento de sintomas como depressão, ansiedade e ideação suicida. Ela também observa aumento na procura por atendimento especializado.

Katia Branco defende uma preparação maior dos profissionais de psiquiatria da rede pública para atender diferentes perfis de pacientes, incluindo homens, mulheres, adolescentes e idosos.

Celular facilita acesso às apostas

Para Claudia Feres, psicóloga da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, a tecnologia ampliou o acesso ao jogo. O celular permite que uma pessoa faça apostas em praticamente qualquer horário e sem precisar sair de casa.

A profissional explica que o tratamento considera a redução de danos e pode envolver estratégias para diminuir o contato com o celular. Segundo ela, algumas pessoas começam a utilizar jogos por falta de informação ou de perspectivas.

As unidades de saúde contam com equipes multidisciplinares para atender pacientes em diferentes estágios do problema. A procura por ajuda deve ocorrer o mais cedo possível, tanto pela pessoa afetada quanto por familiares.

Entre os sinais que merecem atenção estão o isolamento social, a troca do período noturno pelo dia e manifestações de nervosismo. Nos Caps, o atendimento busca acolher o paciente e aproximar a família para construir estratégias de tratamento.

Claudia Feres ressalta ainda que a culpa e a perda de vínculos sociais podem agravar a situação. Para ela, responsabilizar exclusivamente o indivíduo ignora fatores sociais relacionados ao problema e a necessidade de políticas públicas de prevenção e tratamento.

Família tem papel importante no tratamento

Outro paciente, identificado como João*, de 32 anos, procurou atendimento em um Caps após passar a gastar recursos da família com jogos online. Paraplégico após uma briga, ele participa semanalmente de um grupo terapêutico e recebe acompanhamento da mãe.

A família vive em uma comunidade localizada a 30 quilômetros da unidade de saúde, e conseguiu transporte para que ele mantenha o tratamento. A mãe demonstra preocupação com os gastos e espera que o acompanhamento não seja interrompido.

O apoio familiar é considerado fundamental para a continuidade do tratamento, inclusive para ajudar o paciente a manter o uso correto dos medicamentos e a frequência nas sessões.

Abstinência também pode dificultar a rotina

O pedreiro autônomo Ricardo*, de 26 anos, morador de Sol Nascente, no Distrito Federal, afirma que começou a apostar em 2018. Ele estima ter perdido mais de R$ 100 mil, embora não tenha contabilizado o valor exato.

O início ocorreu por curiosidade e pela influência de amigos que apresentavam as apostas como uma possibilidade de obter renda extra e diversão. Ricardo chegou a ganhar algumas vezes, mas os resultados iniciais não impediram o crescimento das perdas.

Pai de uma criança de dois anos, ele teve o relacionamento encerrado em razão das dívidas. Também relata dificuldade para dormir durante períodos em que sente vontade de apostar.

Apesar dos prejuízos, Ricardo afirma que demorou a reconhecer a gravidade da situação. Ele diz que evita se considerar dependente porque não precisou vender objetos da casa para quitar dívidas.

O rapaz também relata que grupos da comunidade se reúnem pela internet para trocar estratégias sobre apostas. Atualmente, trabalha de forma autônoma com reformas, pretende cursar engenharia e procura reduzir o contato com o celular. Para evitar apostas durante a madrugada, costuma desligar o aparelho e mantê-lo distante.

Instituto defende apostas como entretenimento

Em manifestação à Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que afirma representar 75% do mercado brasileiro, declarou reconhecer a importância da prevenção ao jogo problemático e da proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.

A entidade sustenta que as apostas devem ser encaradas como entretenimento, e não como fonte de renda ou alternativa para a subsistência. Segundo o instituto, as empresas autorizadas passaram a operar sob regras e mecanismos de controle desde o início do mercado federal regulado, no começo do ano anterior.

O IBJR considera o jogo problemático uma questão relevante e defende a atuação conjunta do poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade para prevenir casos e oferecer atendimento a quem precisar de suporte.

Setor cita regras para publicidade

Sobre a publicidade, o instituto afirma que as campanhas do setor estão sujeitas a regras específicas, incluindo medidas de proteção para crianças e adolescentes. Também destaca a proibição de mensagens que apresentem as apostas como caminho para enriquecimento ou solução financeira.

A entidade afirma manter diálogo com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) e avalia que a regulamentação brasileira está entre as mais modernas do mundo, com normas tributárias e operacionais.

O instituto também defende o combate às plataformas ilegais, que não estão submetidas aos mesmos mecanismos de fiscalização e controle. Segundo a entidade, o fortalecimento do mercado regulado pode ampliar a rastreabilidade das operações, a responsabilização das empresas e os mecanismos de proteção aos apostadores.

Os personagens entrevistados para a reportagem tiveram os nomes preservados em razão da situação de vulnerabilidade enfrentada por eles.

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