Dor crônica pode estar ligada a casos de depressão resistente

Estudo publicado na Nature Mental Health aponta que pacientes classificados com depressão resistente podem ter uma dor crônica não avaliada influenciando a resposta ao tratamento.

Um artigo publicado na revista Nature Mental Health nesta terça-feira (28) aponta que parte dos pacientes considerados com depressão resistente ao tratamento pode não apresentar apenas uma falha aos medicamentos, mas também uma condição de dor crônica que não foi devidamente avaliada.

A dor crônica é frequente entre pessoas com depressão e pode reduzir a resposta aos antidepressivos. Apesar disso, o problema não faz parte da definição formal de depressão resistente, não costuma ser incluído nos principais questionários clínicos e geralmente fica fora de estudos que orientam diretrizes médicas.

Segundo os autores do estudo, quando um paciente não apresenta melhora após o uso de antidepressivos, a investigação costuma se concentrar na possibilidade de falha da medicação, enquanto a presença e o impacto da dor crônica raramente são analisados de forma estruturada.

Os pesquisadores não afirmam que todos os casos de depressão resistente sejam explicados pela dor crônica. O argumento é que, em alguns pacientes, uma condição dolorosa não identificada pode contribuir para a permanência dos sintomas e para a impressão de que o tratamento não funciona.

Um dos autores do estudo, Nilson Mendes Neto, médico e pesquisador da Harvard Medical School, explica que existe diferença entre saber que um paciente sente dor e medir essa dor de forma padronizada para incorporá-la à avaliação da depressão resistente.

De acordo com o pesquisador, a classificação atual da depressão resistente considera principalmente a ausência de resposta a tratamentos antidepressivos realizados em doses e períodos adequados. A intensidade e o impacto funcional da dor, porém, não fazem parte dessa avaliação. Ferramentas usadas com frequência, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, também não analisam diretamente a carga de dor.

“Não estamos dizendo que os médicos simplesmente ignoram a dor. Estamos mostrando que a arquitetura usada para medir e classificar a depressão resistente não exige que ela seja sistematicamente considerada.”

Os autores destacam que ainda não é possível determinar quantos pacientes podem estar nessa situação. Segundo Nilson, essa resposta depende de uma avaliação mais ampla da dor, algo que atualmente não é realizado de maneira sistemática.

A dor crônica pode influenciar a resposta aos antidepressivos e também alterar a interpretação sobre a persistência dos sintomas. O estudo ressalta que pacientes não devem interromper ou modificar medicamentos com base apenas nas conclusões do artigo.

No contexto brasileiro, os pesquisadores apontam possíveis impactos para o Sistema Único de Saúde (SUS). A avaliação da dor poderia ser incorporada em serviços como atenção primária, ambulatórios de saúde mental e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para ajudar na identificação de fatores que podem interferir no tratamento.

Segundo Nilson Mendes Neto, muitos pacientes atendidos pelo SUS convivem com condições dolorosas crônicas, como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias. Em muitos casos, esses problemas são acompanhados por áreas diferentes da saúde, apesar de envolverem o mesmo paciente.

O pesquisador defende maior integração entre saúde mental e cuidados relacionados à dor. Para ele, avaliar fatores clínicos modificáveis antes de avançar para tratamentos mais complexos pode aumentar a precisão do diagnóstico e direcionar melhor os recursos disponíveis.

No Brasil, uma das medidas sugeridas pelos autores é incluir o rastreamento da dor nas avaliações de pacientes cuja depressão não responde ao tratamento, além de registrar essas informações de forma padronizada e fortalecer a comunicação entre atenção primária, psiquiatria e equipes especializadas em dor.

“Antes de tornar o tratamento mais complexo, precisamos ter certeza de que a avaliação não deixou de medir algo importante e potencialmente tratável.”

Também assinam o artigo Brendon Stubbs, do King’s College London, e Jessika Mendes, da NeuroPsy.

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