Documentário Cafuné evidencia ameaças a mulheres quilombolas e pede proteção

O coletivo de mulheres quilombolas lançou o documentário Cafuné, que mostra os riscos enfrentados por mulheres em comunidades tradicionais e reivindica políticas de proteção coletiva.

O documentário Cafuné, lançado na quinta-feira (12) pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), apresenta relatos de mulheres que vivem com medo constante, ameaçadas por conflitos agrários e pela falta de políticas públicas de proteção. O filme reforça a necessidade de uma ação efetiva do poder público para garantir segurança a defensoras de direitos humanos.

Dirigido por Gabriela Barreto, Maryellen Crisóstomo e Nathália Purificação, o projeto faz parte de uma estratégia maior da Conaq para sensibilizar o governo federal e o Congresso Nacional sobre a urgência de proteção às mulheres quilombolas. O nome “Cafuné” simboliza o cuidado e acolhimento que essas mulheres precisam diante das ameaças.

Proteção coletiva

Selma Dealdina, articuladora política da Conaq, explica que o plano de proteção será coletivo e comunitário, não apenas individual. Está prevista uma solenidade no Congresso Nacional em 12 de maio para celebrar os 30 anos da Conaq, seguida do 3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, na região administrativa do Gama (DF).

O assassinato da ativista Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, em agosto de 2023, reforçou a necessidade de aprimorar os mecanismos de proteção. Entre 2019 e 2024, 26 pessoas de comunidades quilombolas remanescentes foram assassinadas, segundo a Conaq.

“A nossa ideia é propor ao Estado brasileiro um plano de proteção e autocuidado que seja coletivo. Não só para uma pessoa”, afirmou Selma Dealdina.

Ameaças

Conforme a Conaq, pelo menos 100 mulheres vivem sob ameaça no país. O documentário é uma ferramenta para expor os riscos enfrentados. O projeto contou com apoio do Instituto Ibirapitanga e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid).

O plano Cafuné inclui medidas além da segurança pública, como agilização da titulação de territórios, prevenção de adoecimento e apoio à saúde mental.

Vulnerabilidade

Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicou que a população quilombola adulta sofre mais mortes evitáveis que a média nacional. Entre mulheres, a taxa de infarto agudo do miocárdio é 18% maior e de derrame 38% maior. Além disso, muitas comunidades carecem de infraestrutura básica: 55% sem água potável, 54% sem rede de esgoto e 51% sem coleta de lixo.

Compromisso do governo

Élida Lauris dos Santos, secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, afirmou que o governo federal apoia a proteção coletiva e o combate ao feminicídio.

“O projeto Cafuné vem ao encontro do que o ministério está comprometido a resolver”, garantiu a secretária.

Saúde mental

Cida Barbosa, coordenadora nacional da Conaq, destacou que cada região enfrenta desafios distintos, especialmente relacionados às mudanças climáticas e à violência. Ela alertou para a urgência de garantir apoio psicológico às mulheres quilombolas, atualmente insuficiente e inacessível em muitas regiões.

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