Redes de ensino em todo o país ajustaram currículos e formações para garantir o cumprimento da legislação que tornou obrigatório, desde 2003, o ensino da história e cultura afro-brasileira da educação infantil ao ensino médio. Mesmo após duas décadas, conflitos culturais e falta de diálogo ainda geram impasses.
Durante o mês da Consciência Negra, uma escola da rede pública paulista registrou a entrada de policiais após a denúncia de um pai sobre um desenho de orixá feito pela filha. O episódio desencadeou críticas de famílias, comunidade escolar e representantes políticos.
Na capital paulista, as unidades recebem obras com temática étnico-racial. Em 2022, a Secretaria Municipal de Educação adquiriu 700 mil exemplares para diferentes faixas etárias. As escolas também participam de formações contínuas e utilizam materiais de referência, como o documento “Orientações Pedagógicas: Povos Afro-brasileiros”.
As ações são acompanhadas pelo Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais, responsável por orientar práticas antirracistas e integrar esse acervo ao Currículo da Cidade. No âmbito estadual, professores recebem formação pelo Programa Multiplica Educação Antirracista, que aborda cultura e religiosidade africanas.
“Eu não trabalho religião, eu ensino cultura”
Professora há mais de vinte anos, Núbia Esteves integra conteúdos afrodescendentes às aulas de geografia e a projetos interdisciplinares na EMEF Solano Trindade, na zona oeste de São Paulo. Ela explica que aborda os orixás a partir de seus aspectos culturais e mitológicos, comparando símbolos presentes em diferentes tradições.
Nas atividades, os estudantes exploram relações entre divindades africanas e personagens de outras mitologias, além de refletirem sobre preservação da natureza e temas ambientais. A docente também utiliza quadrinhos, literatura e produções artísticas como estratégias didáticas, incentivando a criação de narrativas e cordéis.
Rodas de conversa fazem parte da rotina escolar e estimulam reflexões sobre valores, convivência e ética. A professora relata que, ocasionalmente, é questionada por alunos sobre suposta abordagem religiosa. Ela esclarece que o estudo dos orixás é apresentado como referência histórica, artística e cultural, assim como ocorre com mitologia grega, lendas indígenas e tradições populares.
Núbia destaca que compreender símbolos de origem africana é fundamental para uma educação antirracista. Para ela, trabalhar esses conteúdos contribui para desmistificar preconceitos, ampliar repertórios culturais e enfrentar visões estigmatizadas construídas pelo racismo ao longo do tempo.






















