Samba como expressão política marcou a luta pela democracia no carnaval

Pesquisa acadêmica analisa como escolas de samba enfrentaram a ditadura militar, denunciaram o racismo e defenderam a democracia durante os anos de repressão no Brasil.

O percurso da democracia brasileira ao longo do século 20 foi marcado por avanços e retrocessos, e o carnaval também refletiu essas tensões. Durante o período da ditadura militar, escolas de samba, compositores e integrantes das agremiações foram alvo de censura, vigilância e repressão estatal, além de sofrerem com o racismo estrutural.

Esse contexto é analisado pelo sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino em sua pesquisa de doutorado, defendida na Universidade Estadual de Campinas. O estudo examina os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro nos anos 1980, período que compreende o fim do regime militar e a retomada da democracia no país.

A análise passa por momentos históricos como a campanha das Diretas Já, em 1984, e a eleição presidencial de 1989. Segundo o pesquisador, o samba-enredo funcionou como um instrumento político coletivo, construído ao longo de meses dentro das comunidades e capaz de expressar críticas à tortura, à falta de liberdade e às desigualdades sociais.

Reduzino destaca que o samba, enquanto manifestação da cultura negra, sempre esteve sujeito a uma violência adicional por parte do Estado. Práticas como o uso do antigo Código de Vadiagem reforçaram a criminalização de pessoas negras ligadas à música e às escolas de samba, associando instrumentos musicais à marginalidade.

A pesquisa também aborda a relação entre escolas de samba e contraventores do jogo do bicho durante a ditadura, apontando que esses personagens mantinham diálogo direto com o poder público. Para o sociólogo, responsabilizar apenas as escolas ignora o papel do próprio Estado nessas relações.

Outro ponto central é a crítica ao mito da democracia racial. Embora exaltado em alguns sambas, esse discurso foi contestado por intelectuais e movimentos culturais negros, frequentemente perseguidos pelos órgãos de repressão. O estudo mostra que a ideia de uma escola de samba alinhada ao regime militar é minoritária e funciona como forma de estigmatização histórica.

Ao revisitar os enredos do período, a pesquisa reforça o papel do carnaval como espaço de memória, resistência e debate político, evidenciando que o samba esteve longe de ser apenas entretenimento durante os anos de autoritarismo.

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