Livro usa a linha de ônibus 474 para revelar contrastes do Rio

Obra do arquiteto Gabriel Weber analisa o cotidiano da linha 474, que liga o Jacaré a Copacabana, e expõe desigualdades sociais da capital fluminense.

Uma linha de transporte coletivo que atravessa extremos sociais do Rio de Janeiro é o ponto de partida do livro 474: Jacaré/Copacabana, do arquiteto e urbanista Gabriel Weber. A obra usa o trajeto do ônibus como lente para observar as desigualdades que marcam a chamada “cidade partida”, conectando bairros populares da Zona Norte às áreas mais valorizadas da Zona Sul.

Conhecida por alguns usuários como “linha do terror”, a 474 é descrita como essencial para a rotina da metrópole. O coletivo transporta diariamente trabalhadores do comércio, dos serviços e do trabalho doméstico até regiões onde se concentram empregos, lazer e a orla da cidade.

Ao longo de cerca de 22 quilômetros, o ônibus percorre em média 80 minutos o caminho entre o Largo do Jacaré e o Posto 6 de Copacabana, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. O itinerário inclui aproximadamente 50 paradas e comporta até 70 passageiros por viagem.

Segundo o autor, o perfil das viagens muda conforme o dia. Durante a semana, a rotina é marcada pelo deslocamento para o trabalho. Nos fins de semana, quando moradores da Zona Norte seguem para a praia e áreas de lazer, aumentam os conflitos e episódios de violência associados à linha.

Retrato urbano

A publicação evita tanto a romantização quanto a estigmatização dos passageiros. A proposta, conforme destaca Gabriel Weber no livro, é apresentar a cidade a partir do ponto de vista de quem historicamente tem acesso limitado a seus espaços, evidenciando divisões sociais e raciais.

O percurso da 474 é narrado por meio de contrastes entre riqueza e precariedade, ordem e desordem, lazer e tensão. O texto aborda desde depredações e assaltos até abordagens policiais, discriminação racial e reações hostis de moradores de bairros mais ricos à chegada dos passageiros.

Ao mesmo tempo, o livro registra cenas de solidariedade e convivência. Há relatos de apoio entre passageiros, do cansaço dos trabalhadores no retorno para casa, do cuidado de mães com seus filhos e da alegria de famílias que usam o ônibus para chegar à praia em dias de descanso.

Pesquisa e trajetória

Para construir o relato, Weber realizou diversas viagens na linha, entrevistou motoristas, despachantes e usuários e acompanhou discussões em grupos de moradores da Zona Sul. A obra é resultado de sua pesquisa de mestrado na Universidade do Porto, em Portugal.

O trabalho acadêmico rendeu ao autor o prêmio português Viana de Lima, voltado a produções nas áreas de Arquitetura e Belas Artes. Atualmente, Gabriel Weber cursa doutorado em programa conjunto entre a Universidade do Porto e uma instituição dos Estados Unidos.

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