Irene Santos morre aos 78 anos e deixa legado na fotografia negra

Fotógrafa, historiadora e pesquisadora gaúcha dedicou sua trajetória ao registro da população negra de Porto Alegre e à preservação da memória afro-brasileira. Sua obra mais conhecida recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura em 2006.

A fotógrafa, historiadora e pesquisadora Irene Santos morreu nesta terça-feira (27), aos 78 anos, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nascida na capital gaúcha, ela construiu uma carreira dedicada à fotografia, à pesquisa histórica e à valorização da cultura afro-brasileira.

Formada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Irene nasceu em 1947 e se definia como fotógrafa autodidata. Ao longo da trajetória, aproximou a produção de imagens da investigação histórica, desenvolvendo um trabalho voltado às pessoas, às manifestações culturais e à memória coletiva. Também atuou nas áreas de artes cênicas, música e artes visuais.

A jornalista Jeanice Ramos, integrante do Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, destacou a importância da pesquisadora para a fotografia no estado. Entre suas principais publicações estão Negro em Preto e Branco, Quilombos e Quilombolas e Carnaval. Perspicaz.

Livro resgata a história da população negra

A obra mais conhecida de Irene Santos é Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre, publicada em 2005. O livro reúne imagens e relatos que ajudam a reconstruir a participação de pessoas negras na formação social e cultural da capital gaúcha.

O trabalho recupera histórias de famílias e trajetórias individuais que, por muito tempo, receberam pouco espaço nos registros históricos oficiais. Com a combinação de fotografias e pesquisa documental, a autora contribuiu para dar visibilidade a experiências frequentemente esquecidas na memória pública da cidade.

Em 2006, a publicação recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Literatura Especial, reconhecimento à relevância do projeto.

Em entrevista concedida em 2021 ao Brasil de Fato, Irene explicou que o livro buscava demonstrar a presença de pessoas negras trabalhadoras e honestas em uma cidade marcada pelo racismo, como Porto Alegre.

“A fotografia analógica garantiu a heroica resistência de uma ‘população invisível’ e que corria o risco de ser eliminada dos anais da História da cidade”, afirmou Irene.

Produção cultural e reconhecimento

Além do livro que documenta a população negra de Porto Alegre, Irene Santos publicou Colonos e Quilombolas – Memórias das Colônias Africanas de Porto Alegre. Também participou da produção do webdocumentário Outros Carnavais – Memória do Carnaval de Rua de Porto Alegre, 1930-1969.

Sua trajetória incluiu outras publicações, exposições e trabalhos teatrais, ampliando sua contribuição para a preservação da memória cultural e histórica do Rio Grande do Sul.

Em 2026, a produção da pesquisadora voltou a receber destaque no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a exposição A Força da Memória.

As informações sobre a trajetória e a morte de Irene Santos foram publicadas pela Agência Brasil, responsável pela apuração que serviu de base para esta reportagem.

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