O Carnaval 2026 registrou um momento histórico na Marquês de Sapucaí. Aos 26 anos, Laísa Lima tornou-se a primeira mulher a desfilar como mestra de bateria, comandando os ritmistas da escola Arranco do Engenho de Dentro, da Série Ouro.
A apresentação ocorreu no domingo de folia e foi celebrada por nomes pioneiros do samba. Helen Maria da Silva Simão, de 46 anos, uma das primeiras mulheres a assumir o comando de uma bateria no Rio de Janeiro, destacou o significado do feito. Para ela, a presença feminina em cargos de liderança representa uma mudança importante em um espaço tradicionalmente dominado por homens.
Historicamente, as mulheres nas baterias eram restritas a instrumentos considerados secundários, como chocalhos e agogôs. A ocupação de funções de comando e de instrumentos de maior destaque, como surdos e repiques, ocorreu de forma gradual ao longo das últimas décadas.
Trajetória e desfile
Na avenida, Laísa liderou dezenas de músicos em uma homenagem a Maria Eliza Alves dos Reis, considerada a primeira palhaça negra do Brasil. Fantasiada como Maria Bonita, a mestra conduziu a bateria Sensação, que representou o ritmo do xote de Luiz Gonzaga, elemento presente nas apresentações da homenageada.
Com quatro anos de experiência como mestra em escolas do grupo de acesso e dez anos à frente dos tamborins da Beija-Flor de Nilópolis, Laísa também carrega uma tradição familiar no samba. Sua mãe foi destaque na escola, e seu pai, Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, atuou como diretor de carnaval até falecer em 2021, vítima de covid-19.
O reconhecimento pelo trabalho já rendeu à jovem o prêmio de revelação do Carnaval 2026. Ela também confirmou que continuará à frente da bateria da Arranco no próximo ano.
Diversidade em avanço
Para Helen Maria, a nova geração tem impulsionado mudanças no perfil das lideranças nas baterias. Segundo ela, a sociedade mais aberta permite o surgimento de novas identidades e influências musicais dentro das escolas de samba, ampliando a diversidade no sambódromo.
Outro exemplo dessa transformação é a presença de profissionais LGBTQIA+ em funções de destaque, como o diretor de chocalho Markinhos, da Paraíso do Tuiuti, que levou para a avenida elementos estéticos que misturam referências masculinas e femininas.
A pesquisadora de carnaval e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Helena Theodoro, explica que as baterias são consideradas o coração das escolas de samba, responsáveis por marcar a cadência do samba-enredo e orientar toda a evolução do desfile. Para ela, a ampliação da presença feminina reflete mudanças sociais iniciadas a partir da década de 1960, quando se fortaleceu a ideia de que as mulheres podem ocupar qualquer espaço.
O protagonismo de Laísa Lima simboliza esse novo momento do Carnaval carioca, marcado por maior representatividade e abertura para diferentes perfis de liderança.
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