Emergência climática ameaça oceanos e segurança alimentar global

Pesquisadores alertam sobre impactos do aquecimento global nos oceanos e discutem estratégias de proteção durante o 3º Simpósio BBNJ no Rio de Janeiro.

O aquecimento das águas, o branqueamento de corais, o deslocamento de espécies polares e a queda na reprodução de peixes mostram os efeitos da emergência climática nos oceanos.

Especialistas reunidos no Rio de Janeiro reforçam a necessidade urgente de medidas de proteção, principalmente nas águas internacionais, que representam dois terços do oceano e estão fora da jurisdição de qualquer país.

O 3º Simpósio BBNJ, realizado entre segunda-feira (10) e quarta-feira (12), reúne cientistas, políticos e representantes de organizações internacionais para debater a implementação do Tratado do Alto-Mar, em vigor desde janeiro de 2026.

O tratado, ratificado por 86 países, incluindo o Brasil, estabelece diretrizes para proteger a biodiversidade marinha, promover a troca de tecnologias, criar órgãos de governança e regular o acesso a recursos genéticos.

Com sete menções às mudanças climáticas, o acordo reconhece a necessidade de combater a perda de diversidade biológica e a degradação dos ecossistemas marinhos, destacando problemas como aquecimento, poluição e acidificação, além da importância de proteger áreas vulneráveis.

Segundo Segen Farid Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), “as Nações Unidas têm instituições como o IPCC, mas os relatórios ainda abordam o oceano de forma limitada. O Tratado do Alto-Mar coloca o oceano no centro das discussões”.

Impactos socioeconômicos

Regina Rodrigues, professora de Oceanografia Física e Clima na UFSC, alertou para os efeitos sociais do aquecimento global.

“A elevação do nível do mar ameaça mais de um bilhão de pessoas em zonas costeiras. Três bilhões dependem de frutos do mar como principal fonte de proteína, e a queda na reprodução de peixes compromete a segurança alimentar”, afirmou.

Ela acrescenta que há riscos de deslocamento populacional e possíveis conflitos em regiões dependentes do oceano, como o Pacífico, a Baía de Bengala e a África Ocidental.

Rodrigues defende integrar os esforços do Tratado do Alto-Mar com os da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), atualmente tratados de forma paralela. “A governança precisa ser adaptável e aplicar o princípio da precaução”, afirmou.

Pesca

Juliano Palacios Abrantes, pesquisador do Instituto para os Oceanos e Pescas da Universidade da Colúmbia Britânica, destacou os impactos do aquecimento global sobre a pesca mundial.

Ele observou a complexidade de gerenciar estoques de peixes em águas internacionais, que atravessam múltiplas jurisdições e envolvem diversos países.

“Estudos mostram que estoques de peixes tropicais estão se deslocando das zonas econômicas exclusivas para o alto-mar, o que pode gerar conflitos internacionais, como o caso da cavala na Europa”, explicou.

Palacios Abrantes também alerta para a possibilidade de aumento das desigualdades, já que apenas países ricos têm capacidade de pescar em alto-mar sem acordos de proteção.

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