Como é difícil se chamar Ideilce

O meu nome é esse ai do título sem tirar nem por. É difícil de acreditar, mas é isso ai. Então você pergunta: como pode alguém se chamar assim? É fácil, é só ter um par de pais doidos como eu tive.

Também não sei onde eles acharam isso, se era nome de alguma planta da região, ou de algum calango, ou se foi o sol abrasador do sertão baiano que queimou os miolos deles.

Mas enfim! Esse é o meu nome e confesso que não me envergonho dele. Eu poderia mudar pra Virgulina, (olha só! nome de herói), Severina, (mais vida do que morte), ou Bastiana, ói que nome lindo! Mas eu prefiro esse que tenho.

Ah! Eu ia me esquecendo, eu sou mulher, é meio difícil de identificar porque esse nome pode ser masculino ou feminino, embora muita gente acha que não serve nem pra um e nem pra outro.

Sou baiana arretada, nascida num vilarejo de nome estranho, acho que no passado era município de Caculé, mas hoje já é dono do seu nariz. Meus pais moravam no sítio e nunca registrava o filho logo que nascia. Eles esperavam juntar depois fazia um pacote só, então eles não lembravam a data e punham qualquer uma, eu por exemplo, faço aniversário em dois dias do ano  mas até hoje não sei qual o dia certo.

Bom! Já terminei o meu dossiê, agora vou falar da dificuldade de ter o meu nome. O problema é que ninguém acerta e nem é tão difícil assim, mesmo assim o pessoal se complica. Já me chamaram de uns trocentos nomes diferentes. Ontem mesmo ligaram no meu serviço e queriam falar com o senhor Idelco, ai eu me estressei, senhor Idelco o escambau, eu sou uma menina, não um trator, (depois eu descobri que o nome do veículo é Iveco e não Idelco e também não é trator, é caminhão).

Já me chamaram de tantos palavrões que às vezes até esqueço minha identidade, faço cara de brava, xingo, não respondo, mas no fundo eu até gosto, não importa se colocam mais letras ou se tiram algumas, o importante é que tentam falar o meu nome.

Já pensei até em fazer um dicionário já pensei até como se chamaria: dicionário ideilcês….. acho até que seria um Best Seller, já me vejo numa noite de autografo.

É isso ai, esse foi o nome que me deram e eu sou feliz assim, pelo menos é exclusivo. Já mandei um e-mail pra Globo pra eles darem meu nome pra uma protagonista de uma novela das nove, já pensou? Ai as mães iam querer esse nome nas suas recém-nascidas, legal né?

Se algum dia algum jornal publicar uma história tirando sarro desse meu lindo nome, pode ter certeza que foi aquele chato do meu marido metido a escritor que escreveu.

To nem ai, eu não ligo mesmo.

O Parafuso.

De madrugada (não sei que horas eram, também não me preocupei em olhar, porque eu tava só o pó da rabiola), acordei com um negocinho me cutucando a cabeça, apalpei o travesseiro e peguei o pequeno incômodo, acendi a luz e vi que era um parafuso.

Acordei minha mulher e perguntei: “o que esse troço está fazendo aqui?”.

Ela, na maior tranquilidade falou: “agora danou-se, você já tinha um parafuso a menos, perdeu outro. Agora lascou tudo”. Achei graça. Rimos que nem dois tontos e voltamos dormir.

Na outra noite me lembrei do acontecido e me veio na mente a minha infância, quando minha mãe falava também desse jeito: “oh muleque doido, parece que falta um parafuso”.

E acho que faltava mesmo, porque eu era encapetado, não fazia nada que prestasse.

Traquinagem, peraltice, lambança, arrelia, eram esses os nomes que ela colocava nas minhas brincadeiras inocentes (pelo menos eu achava que fosse). Dizem que de bêbado e de criança Deus toma conta e eu acho que é verdade, não que eu já tenha sido um bêbado, mas já fui muleque. Perdi a conta das vezes que cai de telhado, muro, balanço, árvore, bicicleta, cavalo e até de cachorro. Já tropecei no próprio pé e não me lembro de ter machucado feio.

Dona Genoveva queria morrer quando punha roupa no varal e, quando ia pegar, tinha marca de bola, de mão, e a culpa caia sempre no Vardizinho. É claro! Em quem mais poderia ser?!

E as incontáveis vidraças quebradas, pneus murchos com palito, cocô na maçaneta e muitas outras “arterações”.

Mas, apesar de me faltar algumas peças na cachola, todos gostavam de mim, pois, no fundo, eu era um bom menino, era até prestativo, gostava de fazer alguns pequenos favores somente a troco de um obrigado, o que me deixava muito orgulhoso da minha boa ação.

O tempo passou, eu cresci, hoje sou pai, meus filhos já são adultos e, nas suas infâncias, não fizeram nem um décimo das artes que eu fiz.

Às vezes, fico me perguntando onde estão meus amigos de bagunça… Será que eles ainda se lembram daquele tempo? E o pé de manga rosa do seu Nerso, será que foi cortado pra muleque nenhum roubar mais manga? E a dona Veva? Se ainda estiver viva deve de estar bem velhinha com um montão de bisnetos .

São muitas perguntas. Como está aquele? E aquele outro, que fim levou? Mas a pergunta mais importante e sem resposta é: “quem colocou esse parafuso aqui?”.

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