O pianista brasileiro Tenório Júnior, morto por militares argentinos em 1976, teve seus pertences pessoais entregues a familiares nesta quarta-feira (25) na sede do Ministério Público Federal (MPF), no Rio de Janeiro.
A Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) identificou os restos mortais de Tenório no ano passado e recuperou dois colares que pertenciam ao músico. Elisa Cerqueira, filha do pianista, destacou que os colares são a única memória física do pai, representando um vínculo afetivo importante.
Além dos objetos, a família recebeu a certidão de óbito emitida recentemente, que pode auxiliar na busca por reparação e no reconhecimento da responsabilidade dos Estados argentino e brasileiro na morte do músico.
A entrega foi feita pelo antropólogo argentino Carlos Somigliana, membro da EAAF, que ressaltou o trabalho de mulheres da Unidade de Direitos Humanos da Argentina, responsáveis por preservar os colares de desaparecidos durante a ditadura.
A cerimônia coincidiu com os 50 anos do golpe militar na Argentina, período em que o pianista desapareceu, seis dias antes do início da ditadura que duraria até 1983. Estima-se que o regime deixou pelo menos 30 mil desaparecidos.
O procurador Ivan Marx, do MPF, reforçou que as buscas por brasileiros desaparecidos continuam, com 14 casos na Argentina e cinco no Chile. O objetivo é coletar amostras sanguíneas de familiares para identificar os desaparecidos e dar respostas às famílias.
Histórico
Francisco Tenório Cerqueira Júnior iniciou sua carreira aos 15 anos estudando acordeão e violão, depois dedicando-se ao piano, com o qual se tornou conhecido nacional e internacionalmente. Em 1976, aos 33 anos, acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes em turnê pela América do Sul, estando na Argentina pouco antes do golpe que derrubou María Estela Martinez Perón.
Na madrugada de 18 de março, Tenório deixou o Hotel Normandie, em Buenos Aires, e nunca mais foi visto. Segundo a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, os militares o consideraram suspeito por seu visual e roupas diferentes, ou o confundiram com um líder dos Montoneros.
Após passar por uma delegacia, foi transferido para a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), onde milhares de pessoas foram levadas durante o regime. Documentos de ex-torturador argentino indicam que o capitão Jorge E. Acosta notificou o embaixador brasileiro sobre a morte de Tenório, sem qualquer ação do governo militar brasileiro para informar a família.
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