Selo independente ganha força com iniciativa de jovens músicos no Rio

Diante das barreiras do mercado fonográfico, integrantes da banda Quedalivre criam o selo AlterEgo e reúnem mais de 25 grupos em projeto colaborativo no Rio de Janeiro.

A dificuldade de inserção no mercado fonográfico levou dois estudantes de produção musical a transformar frustração em iniciativa. Victor Basto, guitarrista e vocalista, e João Mendonça, baterista, criaram inicialmente uma produtora de áudio enquanto cursavam faculdade na área. Integrantes da banda Quedalivre, eles decidiram dar um passo além e fundar, no Rio de Janeiro, o selo independente AlterEgo, com o objetivo de impulsionar não apenas a própria carreira, mas também a de outros artistas em situação semelhante.

Segundo Basto, a ideia surgiu após sucessivas tentativas frustradas de contato com gravadoras. A banda enviou materiais para diversos selos, mas não recebeu retorno. “Ficamos decepcionados”, relembra. A ausência de resposta, no entanto, acabou servindo de impulso para a criação de uma estrutura própria, reunindo profissionais de diferentes áreas para atuar de forma coletiva.

Um selo musical é responsável por gerenciar, produzir, promover e distribuir obras de artistas. No caso do AlterEgo, a proposta vai além da atuação tradicional e aposta em um modelo colaborativo. O projeto existe formalmente desde outubro de 2025, mas foi apresentado oficialmente ao público em 7 de fevereiro, durante o festival homônimo realizado no Rio de Janeiro. O evento também marcou o pré lançamento do álbum Seres Urbanos, da banda Quedalivre.

Atualmente, o AlterEgo reúne uma equipe técnica de 22 pessoas, todas com até 25 anos. Victor Basto atua como diretor executivo, João Mendonça responde pela produção fonográfica e Lore Naias, guitarrista e vocalista da Quedalivre, ocupa a direção de eventos. Ao todo, mais de 25 bandas de diferentes estados já integram o selo.

Avanço dos independentes

O movimento liderado pelos jovens acompanha uma tendência global. Pesquisa internacional realizada em 2024 pela consultoria britânica MIDiA Research apontou que entidades independentes representaram 46,7% do mercado mundial de música em 2023, movimentando US$ 14,3 bilhões.

De acordo com a União Brasileira de Compositores, a produção independente enfrenta desafios como a dinâmica do streaming, a dificuldade de promover um número crescente de artistas e a concentração de receitas nas grandes empresas do setor. O estudo Estado da Economia da Música Independente: Fragmentação e consolidação indica que o streaming concentra a maior parte das receitas das gravadoras independentes, com o Spotify respondendo por mais da metade desse montante.

O levantamento também mostra que 87% das gravadoras independentes consideram cada vez mais difícil destacar seus artistas nas plataformas digitais, enquanto 78% relatam obstáculos para manter o interesse do público.

Ecossistema jovem

Inserido nesse cenário, o AlterEgo se define como um ecossistema cultural autogerido. A equipe é formada majoritariamente por universitários ligados à economia criativa, incluindo profissionais de design, fotografia, audiovisual, técnica de som e contabilidade. A proposta segue a lógica do “faça você mesmo”, com produção de eventos e gravações realizadas pelos próprios integrantes.

Para os idealizadores, mais do que um selo independente, o projeto representa uma articulação geracional que busca autonomia diante dos modelos tradicionais da indústria. A meta é fortalecer o cenário local e criar condições para que músicos e profissionais possam viver da própria produção artística, mesmo sem grandes investimentos.

“É possível mobilizar pessoas e fazer música sem um aporte financeiro elevado”, defende Basto. Para ele, a experiência do AlterEgo demonstra que novos artistas podem construir caminhos fora das estruturas convencionais e ainda assim alcançar qualidade e relevância.

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