Energisa promete reforçar atendimento e infraestrutura após cobranças por quedas de energia em Lucas do Rio Verde

Concessionária afirma que município tem capacidade para atender novos empreendimentos, mas reconhece necessidade de ampliar prevenção, comunicação e resposta às ocorrências

As constantes reclamações sobre quedas e oscilações de energia elétrica levaram representantes da Energisa, Câmara de Vereadores, Prefeitura, Aprosoja e CDL a se reunirem na manhã desta sexta-feira (4), em Lucas do Rio Verde. O encontro terminou com uma série de compromissos para melhorar o atendimento, ampliar a comunicação com a população e acompanhar de perto os investimentos necessários para acompanhar o crescimento acelerado do município.

A reunião foi conduzida pelo presidente da Câmara, Airton Callai, que classificou o encontro como uma oportunidade para transformar as reclamações em medidas concretas. Segundo ele, a concessionária deverá apresentar as soluções que serão adotadas, especialmente em relação ao reforço das equipes, manutenção da rede e comunicação com os consumidores.

“Hoje nós não temos comunicação, nós não sabemos o que ocorreu, por que estou sem energia e quanto tempo vai demorar. E isso não é mais permissível em 2026”, afirmou Callai.

Entre os encaminhamentos está o acompanhamento das ações durante os próximos 30 dias. Caso as medidas não apresentem resultados, a Câmara pretende convocar uma audiência pública ampliada, com participação do Ministério Público, Judiciário, Prefeitura, Governo do Estado e Energisa.

“Se isso não ocorrer, nós vamos fazer uma nova reunião, só que daí uma audiência pública. Nós vamos buscar o resultado que seja necessário para atender a população de Lucas do Rio Verde”, destacou o presidente.

Capacidade existe, mas rede precisa acompanhar crescimento

Um dos principais pontos apresentados pela Energisa durante a reunião foi a diferenciação entre capacidade de geração e problemas no sistema de distribuição.

De acordo com Washington Soares Pérez Júnior, coordenador regional de obras e manutenção da Energisa, Lucas do Rio Verde não enfrenta atualmente um problema de capacidade de geração de energia. Segundo ele, a estrutura disponível é suficiente para atender indústrias, comércio e residências que pretendam se instalar no município.

“O Lucas não tem problema de capacidade de carga. Hoje a nossa capacidade é bem além do que a gente pode atender”, afirmou.

O desafio está na expansão e manutenção da infraestrutura de distribuição, especialmente diante do crescimento urbano, comercial, industrial e rural.

A concessionária informou que existem obras estruturais em andamento dentro do município, com entregas previstas para setembro. Uma nova estrutura também deverá ampliar a capacidade de segurança do sistema, funcionando como uma espécie de reserva operacional para assumir cargas em determinadas situações de interrupção.

Segundo Washington, o equipamento permitirá uma configuração de segurança conhecida como “N-1”, possibilitando a transferência automática da carga para outra estrutura quando houver uma falha.

Oscilação frequente não é considerada normal

Outro ponto abordado durante a reunião foi a recorrência de oscilações em determinadas regiões.

Washington explicou que oscilações podem ter diferentes causas, incluindo fatores externos, como vento, galhos de árvores e ocorrências na rede aérea. Porém, quando o problema se repete com frequência, a situação precisa ser investigada.

“Se acontece diariamente, às vezes no mesmo bairro, isso não é normal”, afirmou.

Por isso, a orientação da Energisa é que o consumidor registre cada ocorrência pelos canais oficiais da empresa. O protocolo permite identificar a frequência dos problemas e direcionar ações de manutenção preventiva, que podem incluir substituição de transformadores, chaves ou cabos.

A concessionária afirma que, somente em Lucas do Rio Verde, já realizou mais substituições preventivas de transformadores do que estava inicialmente previsto para o período.

Sobrecarga aumenta à noite

A chegada do período de temperaturas mais elevadas também preocupa a concessionária. Durante o dia, a geração distribuída por sistemas fotovoltaicos ajuda a aliviar parte da demanda da rede. À noite, porém, quando a geração solar deixa de ocorrer e aumenta o consumo residencial e comercial, a pressão sobre o sistema cresce.

A Energisa informou que elaborou um plano de contingência, chamado pela empresa de Plano Neonium, para antecipar esse aumento de demanda e realizar ações preventivas, inclusive substituição de transformadores.

O cenário também está relacionado ao crescimento do uso de aparelhos de ar-condicionado e equipamentos de refrigeração.

Outro fator apontado como crítico é a ligação irregular de consumidores. Segundo Washington, as chamadas ligações “à revelia” estão entre os principais problemas associados à queima de transformadores, especialmente nos períodos de maior carga.

A concessionária também reforçou a necessidade de que moradores e comerciantes comuniquem previamente aumentos significativos de carga.

A preocupação vale especialmente para estabelecimentos que ampliam suas estruturas e passam a utilizar vários equipamentos de climatização.

Comunicação passa a ser prioridade

Se a infraestrutura foi um dos principais assuntos da reunião, a comunicação apareceu como outra cobrança central.

Airton Callai destacou que muitos consumidores não sabem quando uma manutenção programada será realizada e, por isso, acabam acionando os canais de emergência quando percebem a interrupção.

A Energisa reconheceu a necessidade de ampliar a comunicação e informou que pretende utilizar grupos de WhatsApp, rádio, imprensa e outros canais com grande capacidade de alcance para informar previamente sobre desligamentos programados e intervenções na rede.

Jorge Sírio, coordenador de relacionamento da Energisa, afirmou que a empresa também busca uma aproximação maior com moradores, comerciantes e entidades.

Segundo ele, a concessionária pretende colocar seus colaboradores mais próximos das comunidades para compreender as demandas e fornecer respostas.

“A gente tem sentido cada vez mais a necessidade de estar próximo da população justamente para pegar esse termômetro de problemas e trazer soluções para isso”, explicou.

Consumidor pode pedir ressarcimento por aparelho queimado

A reunião também esclareceu uma dúvida recorrente entre consumidores: o que fazer quando uma oscilação ou interrupção de energia provoca danos a eletrodomésticos e equipamentos.

A orientação da Energisa é que o consumidor registre imediatamente a ocorrência e guarde o número do protocolo. Em seguida, deve formalizar a reclamação e apresentar a documentação exigida, incluindo orçamentos e laudo técnico que indique que o equipamento foi danificado em razão do problema elétrico.

Washington ressaltou que os procedimentos são regulamentados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e não criados pela própria concessionária.

Segundo ele, o ressarcimento pode ocorrer após a análise da documentação, com prazo médio informado de 30 a 60 dias, dependendo da situação.

Agosto teve ocorrências na transmissão

A Energisa também fez uma distinção importante sobre as causas das interrupções registradas recentemente.

Segundo Washington, houve três ocorrências em agosto relacionadas à transmissão de energia. Nesse caso, a responsabilidade não é da Energisa, que atua na distribuição.

Ainda assim, a orientação ao consumidor é registrar a ocorrência nos canais da concessionária, pois o protocolo permite documentar o problema e acompanhar sua origem.

Agronegócio cobra estrutura para acompanhar expansão

Representando a Aprosoja, a delegada Taisa Botton avaliou que houve avanço no relacionamento entre a entidade e a Energisa, mas destacou que ainda existe um longo caminho para resolver questões estruturais.

Para o setor produtivo, o problema ganha dimensão ainda maior diante da proximidade da pré-semeadura e da futura entrada em operação de pivôs de irrigação.

“Todos os dias nós temos protocolos, assim como na área urbana, na área rural acontece da mesma forma”, afirmou.

Ela chamou atenção ainda para a importância da estabilidade do fornecimento em propriedades com aviários e criação de suínos. Segundo Taisa, oscilações podem provocar prejuízos significativos nessas atividades.

A instalação de reguladores já teria proporcionado melhora em determinadas situações, mas, na avaliação da Aprosoja, as demandas estruturantes continuam sendo necessárias.

Com a expansão da agricultura irrigada e da agroindústria, a necessidade de energia tende a aumentar.

Energisa prevê R$ 9 bilhões em investimentos

Outro dado apresentado durante a reunião foi o plano de investimentos da Energisa para Mato Grosso.

Jorge Sírio informou que a empresa prevê aproximadamente R$ 9 bilhões em investimentos nos próximos anos, com atenção especial às regiões de expansão e ao meio rural.

Segundo ele, Mato Grosso apresenta crescimento acelerado em determinadas regiões, enquanto a industrialização do campo aumenta a necessidade de infraestrutura elétrica.

O planejamento inclui a expansão da rede para acompanhar novos empreendimentos e atividades produtivas.

Sírio destacou, entretanto, que a expansão precisa ser planejada em conjunto com os empreendedores. Projetos como algodoeiras, estruturas de armazenagem e outras instalações de maior consumo precisam considerar antecipadamente a demanda energética.

“Não podemos construir uma estrutura sem pensar nesse processo”, explicou.

A orientação da empresa é que produtores e empresários procurem a concessionária ainda durante a fase de planejamento, permitindo que a infraestrutura de energia acompanhe a construção do empreendimento.

Energisa promete reforçar atendimento e infraestrutura após cobranças por quedas de energia em Lucas do Rio Verde
Foto: Ascom Câmara/Rayan Nicácio

Crescimento de Lucas exige planejamento conjunto

A reunião revelou, portanto, que o debate sobre energia em Lucas do Rio Verde vai além das quedas de luz.

De um lado, moradores e setores produtivos cobram estabilidade, rapidez no atendimento e respostas mais claras. De outro, a concessionária sustenta que existe capacidade para atender o crescimento do município, mas reconhece a necessidade de acompanhar a expansão da demanda com obras, manutenção preventiva e equipes locais.

Para Airton Callai, o próximo passo será verificar se os compromissos assumidos efetivamente chegarão ao consumidor.

A Câmara estabeleceu uma espécie de período de avaliação de 30 dias. A partir daí, os resultados serão analisados e, caso os problemas persistam, o município poderá avançar para uma discussão institucional mais ampla.

Mais do que uma queda de energia, o episódio expõe um desafio típico de uma cidade em rápida transformação: fazer a infraestrutura crescer na mesma velocidade que a economia, as empresas, o comércio, as residências e o campo.

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