Estudo aponta sintomas depressivos em 29% dos idosos avaliados em Cuiabá

Um estudo realizado com 373 idosos em Cuiabá identificou sintomas depressivos em 29% dos participantes e chamou atenção para a relação entre saúde mental, vulnerabilidade social, déficit cognitivo e presença de outras doenças. O trabalho, intitulado “Depressão em idosos na atenção primária e fatores associados”, ganhou destaque na Revista Sociedade Científica.

A pesquisa foi desenvolvida no âmbito da Universidade de Cuiabá (UNIC), com participação de pesquisadores da própria instituição, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). Entre os autores está o professor da UFMT Ageo Mário Cândido da Silva, em parceria com Juliana Santi Sagin Pinto Bergamim, Amanda Martinez Lafetá, Ana Vitória Vobeto Pinto, Bruno Dutra Rodrigues, Emilly Maria Borba Pires, Léia Souza Tavares e Luciana Marques da Silva.

Os resultados reforçam um desafio que tende a ganhar importância nos próximos anos: o envelhecimento da população e a necessidade de ampliar a capacidade dos serviços de saúde para identificar e acompanhar situações que afetam a qualidade de vida dos idosos.

Vulnerabilidade aparece como principal fator associado

Segundo os autores, a vulnerabilidade foi o fator mais relevante entre as condições associadas aos sintomas depressivos. Também apresentaram relação importante o déficit cognitivo e a presença de comorbidades.

O perfil dos participantes evidencia algumas das características sociais que precisam ser consideradas no cuidado com essa população. A maioria era formada por mulheres, que representaram 63% da amostra. Pessoas pretas ou pardas correspondiam a 57%, enquanto 49% viviam sozinhas.

Entre os entrevistados, 27% tinham 75 anos ou mais, 26% apresentavam renda inferior a um salário-mínimo e 19% declararam não saber ler.

Para os pesquisadores, esses elementos demonstram que a saúde mental do idoso não pode ser analisada de maneira isolada. Condições sociais, capacidade funcional, cognição e doenças crônicas podem se combinar e aumentar a vulnerabilidade.

Sinais podem aparecer de diferentes formas

A depressão na velhice pode apresentar sinais que vão além da tristeza. Entre os principais alertas estão humor deprimido ou tristeza persistente, perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas, alterações no sono e no apetite, queixas físicas frequentes e isolamento social.

A identificação desses sinais é importante porque a depressão pode contribuir para o agravamento de doenças crônicas e para a perda de funcionalidade, afetando a autonomia e a qualidade de vida.

Nesse cenário, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) têm papel estratégico. Por serem a porta de entrada do sistema de saúde, podem contribuir para a identificação precoce de sinais de sofrimento emocional, avaliação das condições gerais do paciente e encaminhamento para atendimento especializado quando necessário.

Cuidado precisa olhar o idoso como um todo

Os pesquisadores defendem uma abordagem integrada na Atenção Primária à Saúde, com avaliação multidimensional do idoso. A proposta considera que o acompanhamento não deve se limitar à investigação de sintomas depressivos, mas também observar aspectos cognitivos, funcionais, clínicos e sociais.

A Avaliação Geriátrica Multifuncional aparece, nesse contexto, como uma ferramenta importante para orientar intervenções individualizadas. Entre as estratégias apontadas estão a prevenção, o manejo de comorbidades, a preservação da funcionalidade e o fortalecimento das redes de apoio.

Programas nutricionais, atividades voltadas à manutenção da independência e iniciativas que ampliem o suporte social também podem contribuir para melhorar a qualidade de vida.

Pesquisa apresenta limitações

Os próprios autores destacam limitações do estudo. Por ter delineamento transversal, a pesquisa não permite estabelecer relações de causa e efeito entre os fatores analisados. Além disso, o trabalho foi realizado em uma única localidade, Cuiabá, o que limita a generalização dos resultados para outras populações.

Outro ponto é que os dados foram baseados em autorrelato. A Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15), utilizada no estudo, é um instrumento de rastreamento e não substitui uma avaliação e um diagnóstico clínico.

Ainda assim, os resultados reforçam a importância de ampliar a atenção à saúde mental da população idosa e de integrar diferentes dimensões do cuidado dentro da Atenção Primária. Com o avanço do envelhecimento populacional, identificar precocemente situações de vulnerabilidade pode ser fundamental para preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida.

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