Faltando poucos dias para que os eleitores de Mato Grosso decidam quem comandará o Estado pelos próximos quatro anos, um fenômeno conhecido volta a ganhar espaço no debate público: a substituição das propostas pelas críticas entre adversários.
As declarações recentes trocadas entre candidatos ao Governo do Estado refletem um cenário que costuma se intensificar à medida que a votação se aproxima. Acusações, questionamentos sobre alianças, lembranças de eleições passadas e disputas narrativas passam a ocupar boa parte do espaço que poderia estar sendo utilizado para apresentar soluções concretas para os desafios da população.
O problema não está na divergência. Em uma democracia saudável, divergências são necessárias. Elas permitem que o eleitor compare visões de mundo, prioridades administrativas e diferentes caminhos para o desenvolvimento. O desafio surge quando a disputa passa a girar quase exclusivamente em torno do adversário, e não do futuro.
O cidadão que acompanha a campanha quer saber algo muito simples: o que mudará em sua vida após a eleição?
O produtor rural quer entender como ficará a infraestrutura para escoar a produção. O trabalhador deseja saber quais serão as políticas de geração de emprego. O comerciante busca previsibilidade econômica. As famílias querem respostas sobre saúde, educação, segurança e qualidade dos serviços públicos.
São perguntas objetivas que exigem respostas igualmente objetivas.
Naturalmente, governos precisam ser avaliados. Quem está no poder deve prestar contas de seus resultados, assim como quem pretende assumir a administração pública precisa explicar como pretende fazer diferente. O confronto de ideias é parte fundamental do processo eleitoral.
Mas existe uma diferença importante entre confrontar ideias e transformar a campanha em um ciclo permanente de acusações.
Quando os candidatos dedicam mais tempo a apontar falhas dos adversários do que a detalhar seus próprios projetos, o eleitor perde a oportunidade de fazer uma comparação mais profunda das propostas em disputa.
Em um estado com a relevância econômica de Mato Grosso, líder nacional em diversos setores do agronegócio e com desafios crescentes nas áreas urbanas, o debate público precisa alcançar um nível mais elevado.
A discussão sobre logística, habitação, saúde regionalizada, qualificação profissional, inovação tecnológica, segurança nas fronteiras, preservação ambiental e desenvolvimento dos municípios deveria ocupar o centro das atenções.
Há uma geração inteira de jovens que votará pensando no mercado de trabalho dos próximos anos. Há produtores preocupados com custos de produção. Há prefeitos aguardando definições sobre investimentos. Há cidadãos que dependem diariamente de hospitais, escolas e serviços públicos.
Esses temas não podem ficar em segundo plano.
Os debates eleitorais representam uma das últimas oportunidades para que os candidatos apresentem suas ideias diretamente à população. Mais do que momentos de confronto, eles podem servir como espaços para detalhar projetos, esclarecer dúvidas e demonstrar capacidade de liderança.
A crítica tem seu papel. A fiscalização das gestões também. Mas o eleitor ganha muito mais quando consegue enxergar claramente o que cada candidato pretende construir do que quando acompanha apenas uma sequência de acusações mútuas.
A democracia se fortalece quando as campanhas ajudam a população a decidir com base em informação, projetos e perspectivas para o futuro.
Na reta final desta eleição, talvez a principal expectativa do cidadão mato-grossense não seja descobrir quem critica melhor o adversário, mas quem apresenta as respostas mais consistentes para os desafios que o Estado enfrentará nos próximos anos.
Porque, depois que as urnas forem fechadas e a campanha terminar, o que permanecerá não serão os ataques. Permanecerão as decisões que impactarão a vida de milhões de mato-grossenses.
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