Secas mais frequentes, ondas de calor e mudanças no regime de chuvas aumentam o desafio para a agricultura brasileira e colocam a adaptação climática no centro das estratégias de produção. Nesse cenário, pesquisas com microrganismos apontam caminhos para tornar as plantas mais resistentes e reduzir perdas no campo.
O tema esteve no centro do encontro “Clima em Transformação: Bioinsumos para adaptação aos estresses ambientais”, realizado em 18 de agosto, na Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP). Cerca de 150 pesquisadores, produtores, técnicos e representantes do setor produtivo participaram das discussões sobre riscos climáticos, manejo e soluções biológicas.
Realizado pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a NOOA Ciência e Tecnologia Agrícola, o encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para aproximar ciência e produção. A proposta foi discutir como informações climáticas, práticas de manejo e bioinsumos podem contribuir para preparar as lavouras para condições ambientais cada vez mais adversas.
Um dos alertas veio do professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Rafael Battisti. Segundo ele, a combinação entre risco climático e manejo inadequado pode representar perdas de 30% a 50% da produtividade das culturas de grãos no Brasil.
Especialista em água e meteorologia aplicada à agricultura, Battisti apresentou o conceito de yield gap, ou lacuna de produtividade, que representa a diferença entre o potencial produtivo de uma cultura e aquilo que efetivamente é obtido no campo.
Para o pesquisador, o risco climático precisa ser considerado junto às decisões de manejo. Temperatura, disponibilidade de água e regime de chuvas interferem diretamente no desempenho das lavouras e podem ampliar as perdas quando associados a práticas inadequadas.
El Niño aumenta a atenção
As perspectivas para os próximos meses também foram apresentadas pelo pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Zeri.
Especialista em agrometeorologia e secas, Zeri explicou que os efeitos do El Niño não são iguais em todas as regiões brasileiras. O fenômeno pode contribuir para uma combinação de extremos, com condições mais secas no Norte, excesso de chuvas no Sul e temperaturas elevadas em grande parte do país.
Diante desse cenário, o pesquisador reforçou a importância de incorporar informações meteorológicas, séries históricas e previsões climáticas ao planejamento agrícola.
Microrganismos contra o estresse
É nesse ambiente de maior pressão climática que os bioinsumos ganham espaço. O pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Itamar Soares de Melo apresentou estudos envolvendo microrganismos capazes de ajudar as plantas a enfrentar seca, calor, frio e salinidade.
Entre as pesquisas estão estratégias para ampliar a tolerância das culturas ao déficit hídrico e às temperaturas extremas. Também foram apresentadas linhas de estudo envolvendo bactérias relacionadas à formação de gelo sobre tecidos vegetais e agentes biológicos utilizados no controle de doenças agrícolas.
João Ventura, da Agrivalle, mostrou ainda pesquisas com organismos adaptados a ambientes extremos, incluindo arqueias encontradas na Caatinga com potencial para reduzir os impactos da salinidade sobre as plantas.
Da pesquisa à lavoura
Um dos exemplos apresentados durante o encontro foi o Auras, bioinsumo desenvolvido a partir de pesquisas da Embrapa Meio Ambiente e levado ao mercado em parceria com a NOOA.
A tecnologia utiliza a bactéria Bacillus aryabhattai, associada à maior capacidade das plantas de enfrentar condições de déficit hídrico e temperaturas elevadas. O desenvolvimento foi resultado de aproximadamente 12 anos de pesquisa.
Lucas Carvalho e Silva, da área técnica da NOOA, apresentou a trajetória científica até a transformação da pesquisa em produto comercial. O encontro também marcou os cinco anos do lançamento do Auras.
Para Cláudio Nasser de Carvalho, fundador da empresa, a maior frequência de eventos climáticos extremos reforça a necessidade de ferramentas capazes de reduzir perdas e aumentar a resiliência das culturas.
Ao final, a mensagem deixada pelos especialistas foi clara: a adaptação da agricultura às mudanças do clima não dependerá de uma única tecnologia. O caminho passa pela combinação de planejamento climático, manejo adequado, conservação dos recursos naturais e soluções biológicas.
Nesse cenário, os bioinsumos deixam de ocupar apenas o espaço da inovação e passam a integrar uma estratégia mais ampla de resiliência da produção agrícola brasileira diante de um clima cada vez mais desafiador.
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